sábado, fevereiro 09, 2008

Usos e Abusos

Tudo o que é disponível, é usável. Mas, sem valores como ponderação, respeito, bom-senso, pode virar abusável.
É o caso dos cartões corporativos, bola da vez da mídia e véu do momento a toldar importantes questões que nos afligem.
Não que o assunto não seja importante. Muito pelo contrário.
Trazê-lo á tona nos faz lembrar do quanto a natureza humana é frágil e do tanto que os valores éticos de nossa sociedade estão corrompidos.
Tivéssemos nós também um cartão desses, associado à sensação de onipotência e de impunidade umbilicalmente ligada à gestão pública brasileira nos últimos tempos, também fraquejaríamos?
Sinceramente, não sei.
Essa questão não pode ser relativizada nem quantificada.
Relativamente, o gasto foi pouco. De um orçamento federal de mais de 200 bilhões em despesas, foram gastos perto de 80 milhões. Menos de meio porcento. Relativamente, não é nada.
Em termos absolutos, para nós é muito. Para o Bill Gates, não relevante.
A crise maior é moral. É a falência do Estado tutor.
Pela emoção da crise Collor, criaram a Lei 8666, em substituição à regulamentação em vigor, instituída pelo DL 200. Com a nova lei, entraram em detalhes operacionais que engessam o correto e abrem túneis para o mal-feito. Resultado: diversas reedições, alterações, escândalos sucessivos.
O Estado de São Paulo, a acreditarmos nas notícias, utilizou o cartão em mais de 130 milhões, em 2007. Superou o governo federal. Nos outros estados, ainda não há notícia, mas a OAB está fuçando, em sua vocação para luzes e holofotes.
Estão errados os governos estaduais, municipais e federal no uso do cartão? Não, claro que não. É elemento facilitador da gestão pública e eliminador de pequenos-caixas espalhados pelas diversas repartições para o atendimento de pequenas despesas.
O Comando da Aeronáutica, recentemente, divulgou nota a rspeito dos gastos em cartões por oficiais da força, com informações que os justificam plenamente. Aparentemente, uso correto.
Nesse caso, então, o que há de errado?
O erro, em minha opinião, é a ruptura dos valores morais experimentada pela sociedade brasileira, que tornou Macunaíma profético.
É necessário interrompermos o processo de tutela e curatela do Estado sobre os cidadãos. Eliminar essa infinidade de fiscalizadores, de tribunais de contas e de faz-de-contas. De instituir o império da lei. De punir exemplarmente quem se valha da sociedade em benefício próprio. E para isso existe o judiciário.
É necessário que a formação dos jovens, além dos estudos, respalde-se no exemplo, instrumento único para a fixação de valores. E não é gastando fortuna pública com segurança de filha adulta, no caso Lurian, que se dá o exemplo.
Madames ou circunspectos senhores, juízes, desembargadores, procuradores, parlamentares, secretários e sua entourage, agentes públicos de todos os escalões e escalas, quando utilizam viaturas públicas para compras ou passeios pessoais, estão dando esse exemplo?
Quando funcionários surrupiam papel e lápis da repartição para complementar o material escolar de seus filhos, consideram normal?
Quando o dedo funciona livre, lépido e solto para fazer ligações telefônicas que não são feitas em casa como corte de despesas pessoais, consideram justo?
Quando a máquina da xerox serve até para copiar correntes petéticas para distribuir aos outros, ameaçando se não forem reproduzidas, consideram ético?
Quando deputados federais ressarcem-se de 16 milhões de litros de gasolina só em 2007 - suficientes para um veículo de luxos percorrer 80 vezes a distância da terra à lua - dão bom exemplo moral?
Enquanto tudo isso permanecer, não há o que reclamar. Éa regra do jogo.
É a conversão do uso em abuso.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

BRAVO!!!

CONCORDO

ANDRÉ

10:51 AM  

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