segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Sonolência Burocrática

- Seu João, pode entrar, disse a recepcionista, cruzando as pernas e olhando para ele.

João, motorista com mais de 30 anos de estrada, precisava renovar sua carteira de habilitação e, para seu azar, o Contran, com sua imbecilidade tão singular, inventou mais uma regrinha para ser cumprida. João entrou e sentou-se à frente da mesa do médico.

Médico esse que, pela cara de enfado e desânimo explícito, demonstrava claramente haver abandonado Hipócrates para dedicar-se à carreira burocrática. Mais chata, porém mais fácil para garantir o pão de cada dia e as pensões alimentícias.

- Seu João, o sr tem distúrbios do sono, perguntou?

- Diz o quê? Repete que eu digo qualquer coisa, afirmou o convicto João, disposto a concordar com tudo.

- Não, seu João, não é isso. O sr tem distúrbios do sono? Dorme bem?

- Bem doutor, dormir bem é difícil naquela cabine apertada. Da cama de meu caminhão não se pode dizer Oh! Que beleza de cama. Mas a gente se amontua e dá um jeito. Só agora recente, depois que inventaro a tal de lei mandando que não posso trabalhar mais de 8 horas no dia, eu perco o sono com a prestação do bruto.

- Não é isso - pensou em complementar com um seu burro, mas só pensou. Quero saber do ronco.

- Bem, já que o doutor tocou no assunto, o ronco é um problema. A gente tá parado num posto, de madrugada, sempre entra um caminhão roncando. É só a gente pegar no sono. Barulheira infeliz.

- Seu João - paciência chegando ao fim - quero saber se o senhor ronca! Que droga de profissão, pensou. Pensou, mas não falou.

- Às vezes o ronco do motor entranha na cabeça da gente, sim. Fica uma zoeira danada nas orêia. Mandei até botar umas borracha no isolamento. Melhorou a fumaça, mas o ronco continua, sim senhor.

- Seu João - quase gritou o médico exasperado - pouco se me dá do caminhão. Eu quero saber se o senhor ronca.

- Ah, sim! Agora intendi. Parece que eu roncava, doutor, no dizer da minha sogra. Mas dispois que a véia morreu, ninguém mais reclamou. Acho que ela inventava, só pra me atentar. Danada, a véia.

- Bem, deixa pra lá. E falta de ar, o sr sente quando se deita?

- Poucas veiz. Tem uns posto, umas churrascaria que serve repolho e batata doce. Aí falta ar dentro da cabine. Tenho até que abrir a janela.

Foi a gota d'água. O médico, indeciso entre mudar de profissão ou ter um ataque de apoplexia, adotou uma terceira opção. Carimbou o papel do exame com um Isento de Distúrbios do Sono.
E assinou. Com CRM e tudo.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Engraçado isso: recepcionista sempre cruza as pernas mas,a maioria, não olha para o recepcionado. Outra coisa muito presente é a necessidade de garantir a grana das pensões alimentícias. Que o digam Renan e Malufinho.

André

10:50 PM  

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