quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O Fedorento

O avião ainda nem havia ligado as turbinas e a luzinha do bagageiro acendeu, chamando a aeromoça. A comissária, gentil, foi ver do que se tratava.
Havia duas cadeiras ocupadas, das três disponíveis. Na janela, a autora da chamada reclamava do mau-cheiro de seu vizinho. Fedentina danada, catinga antológica. Sovaqueira infeliz.
Segundo ela, o vizinho desconhecido exalava esgoto por todos os poros. Respirava hálito de latrina. A megera queria que expulsassem o fedorento ou lhe arrumassem, para si, uma máscara contra gases tóxicos ou, no mínimo que liberassem o oxigênio até o pouso no destino.
E olha que não é pequena a distância entre o Havaí, ponto de partida, e Düsseldorf, destino do vôo.
Explicava aos gritos, a farejadora, que seu plano de saúde não previa a cobertura por intoxicação respiratória. A British Airways, operadora do avião, seria responsabilizada por possíveis danos a suas pupilas olfativas. Perto dele, chucrute e conserva de rabanete eram perfume francês.
Levado o assunto ao comandante, em meio a risadas pelo inusitado, decidiu-se pelo desembarque do cheirosinho. Tiraram-no do avião, com a tripulação tampando o nariz.
No salão de desembarque, passageiros em trânsito começaram a olhar uns para os outros, desconfiados e com olhar de nojo, mudando de lugar. Uma velhinha alemã, após encarar seu vizinho de banco, sentou-lhe uma guardachuvada na testa e, mirando-o nos olhos antes de se levantar e sentar em outra poltrona, pigarreou do âmago de suas amídalas: "schwein".
Dizem, mas ninguém prova, que após o desembarque e seu encaminhamento às autoridades sanitárias e de uma meteórica passagem no IML local para atestar que ainda estava vivo apesar das evidências de putrefação, foi encaminhado a um lava-jato com direito a banho de champu de carro, purificado e embarcado em outro vôo.
Bem, todos esses detalhes são conversa de botequim. Sabem como é, o povo fala demais.
A verdade verdadeira é que ontem, dois anos depois do acontecido, o tribunal de Düsseldorf condenou a BA a pagar-lhe uma indenização de 260 euros pela perda de uma conexão.
Isto sim é um fato verídico.

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