segunda-feira, janeiro 22, 2007

Carlinhos Denatran - o Cindacta

Dizem que foi para se livrar dele. Maldade de invejosos. Não acredito, foi por mérito próprio. Mas o fato, independente das circunstâncias e da meteórica duração, é que Karlinhos foi cedido para a ANAC. Alguém confundiu especialista de trânsito com especialista em tráfego e, na onda da confusão, lá foi Karlinhos.
Recebido com honras de autoridade, meteu mãos à obra.
O primeiro desencanto veio com sua defesa apaixonada de que os aviões deveriam voar baixinho e devagar. A lógica era irrefutável, em sua opinião. Se voassem devagar, por exemplo, a 80 ou 100 km/h, poderiam mais facilmente desviar uns dos outros ou mesmo impedir o atropelamento de um paraquedista incauto.
E, se estivessem baixinho, os passageiros teriam mais chance de se salvar numa eventual queda. Quem sabe, até pulando de uma janela.
O Brigadeiro de plantão, ao escutar a inusitada tese, após discorrer um pouco sobre as Leis de Newton e o Teorema de Bernouille, propôs que Karlinhos conhecesse a Base de Anápolis, com direito a uma volta num Mirage. Sentisse a teoria na prática.
Pálido, Karlinhos bem que tentou, mas como recusar um gentil convite formulado por asas prateadas, estrelas estilizadas e medalhas no peito?
Foi.
O piloto havia sido instruído para virar o Karlinhos do avesso. E sabe como é, ordem é ordem. Além do que, não é sempre que têm combustível para voar.
O velho Mirage, bufando por todas as turbinas e suando por todos os buracos na fuselagem, não decepcionou. Piruetou mais do que bolacha em boca de desdentado.
Karlinhos vomitou as tripas e seu conteúdo, após meia dúzia de touneaux e loopings. E chegou à conclusão que seu negócio não era aviação. As faixas de segurança eram, efetivamente, mais seguras.
Daí pra frente, resolveu não mais tentar resolver os problemas do tráfego aéreo e manter seus pés no chão. Concentrou-se nas salas do Centro de Controle. Que se danassem os pilotos e passageiros. Bando de malucos.
Na primeira visita que fez ao Cindacta, após olhar embasbacado telas e radares, rádios e fichários, escreveu um relatório detalhado, cuja conclusão considerava uma temeridade os controladores estarem trabalhando sem cinto de segurança. E se um daqueles aviões que apareciam na tela enfrentasse uma turbulência. Ou pior, se o piloto do Mirage estivesse no comando de um deles e virasse tudo de cabeça pra baixo? Louco, aquele tenente de Anápolis.
O Brigadeiro, o mesmo anterior, escutou a exposição das conclusões num misto de espanto e pasmo. Não acreditava no que ouvia.
Finda a reunião, chamou o rapaz do cafezinho e segredou-lhe ao ouvido que amarrasse o Karlinhos na cozinha. Se não tivesse um cinto de segurança sobrando, podiam usar fio de luz mesmo. Que provasse do próprio remédio.
Ordem é ordem. Ainda mais de Brigadeiro.
Karlinhos passou a noite na copa, amarrado e amordaçado. A mordaça foi por conta do segurança noturno, que não agüentava mais os lamentos escatológicos de Karlinhos, mas não se atrevia a soltá-lo.
Liberado no dia seguinte, ao chegar em casa, desgrenhado e ainda pálido, disse, para manter as aparências, que tinha sido vítima de um seqüestro relâmpago. Coisas da insegurança no trânsito.
No mesmo dia, protocolou seu pedido de retorno ao DETRAN.

(Figuras de Brasília ... é publicada às segundas-feiras - às vezes)

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