domingo, janeiro 21, 2007

Esquerda/Direita II

Alguns políticos dizem-se de esquerda, querendo agregar para si a imagem de inovador, de focado nos aspectos sociais. Não lembro de nenhum que se autodenomine de direita, talvez pela campanha de massa vinculando a direita ao usufruto de privilégios.
Em ambos os casos, políticos em geral usam os termos de forma pejorativa, carimbando seus adversários como um estigma.
Poucos sabem do que falam. E os que sabem, sofismam.
Como as ações ditas de esquerda polarizam uma relação e amor e ódio - por que ainda são confundidas com comunismo por alguns - vão aí alguns elementos para debate.
O termo esquerda é originário da posição física ocupada pelos jacobinos na mesa diretora da Convenção na Revolução Francesa. Os jacobinos eram tão revolucionários quanto os girondinos, primeiros a ocupar o poder e de certa forma vinculados à nobreza, ao clero e à alta burguesia. Os girondinos avançaram nas reformas revolucionárias porém transigiram em alguns valores exatamente por essa vinculação. Um exemplo foi a abolição da escravatura somente na França, não extensiva às colônias, pelos interesses dos proprietários. Sentavam-se à direita do Presidente da Mesa.
Substituídos os girondinos pelos jacobinos - que sentavam-se à esquerda na Mesa Diretora - as reformas foram aprofundadas, bem como o chamado terror, com reflexos subliminares até hoje na moderna burguesia. Pode vir daí o pavor de alguns pela esquerda.
No entanto, os jacobinos adotaram medidas que não são lembradas, mas que influenciaram significativamente as sociedades pós revolução. Algumas delas:

Abolição da escravatura nas Colônias;
Reforma Agrária, com distribuição das terras da nobreza emigrada e da Igreja, que foram divididas em lotes menores e vendidas a baixo preço aos camponeses pobres. Os pagamentos foram divididos em 10 anos;
Lei do Preço Máximo, estabelecendo um teto máximo para preços e salários;
Venda de bens públicos para recompor as finanças públicas;
Pensões anuais e assistência médica gratuita a crianças, velhos, enfermos, mães e viúvas;
Auxílio aos indigentes
Culto revolucionário fundado na razão e na liberdade.
Proclamação da Primeira República Francesa
Organização de um exército revolucionário e popular que liquidou com a ameaça externa;
Organização dos comitês de Salvação Pública, formado por nove membros e encarregado do poder executivo, e de Salvação Nacional ou de Segurança Geral, encarregado de descobrir os suspeitos de traição;
Criação do Tribunal Revolucionário
Elaboração da Constituição de 1793, que pregava uma ampla liberdade política e o sufrágio universal masculino. Essa Carta foi inspirada nas idéias de Rousseau
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em que se afirmava que a finalidade da sociedade era o bem comum e que os governos só existem para garantir ao homem seus direitos naturais: a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade;
Criação do ensino público gratuito;
Fundação do Museu do Louvre, da Escola Politécnica e do Instituto da França;

Como se vê, não eram medidas "comunistas". Antes, iluministas e humanistas.

No período revolucionário francês, houve também um movimento liderado por Graco Babeuff defendendo que a única maneira de alcançar a igualdade era com a abolição da propriedade privada. Para surpresa de muitos de hoje que confundem esquerda com comunismo, os líderes foram guilhotinados pela própria "esquerda", o que não impediu, entretanto, que as idéias de Babeuff servissem de base para a luta da classe operária no século XIX, influenciando inclusive Marx.
A sociedade pitagórica era, em essência, comunista. Os essênios, que influenciaram fortemente a pregação de Cristo, formavam uma sociedade comunista. Por motivos diversos, não sectários, também Jesus pregou a distribuição de bens. Atualmente, os kibutzin praticam uma forma de comunismo.
E o que isso tudo tem a ver com esquerda?

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