sexta-feira, janeiro 19, 2007

Ovo de Serpente

A admissão da Venezuela no Mercosul, sem a negociação prévia das condições de adesão ao bloco exceto as genéricas, como tarifas externas comuns e manter-se democrática, mudou o foco do Mercosul de bloco econômico para bloco político.
E aí, vai dar com os burros n'água.
A América espanhola e o Brasil terão que conviver ainda por muitos séculos para não serem mais água e óleo. Não se misturam. Por enquanto, se juntadas, podem fazer uma emulsão por estímulos específicos, mas nunca uma solução.
Suas histórias são mais diferentes do que as culturas portuguesa e espanhola.
Dos espanhóis, herdaram a arrogância, o caráter predatório-belicoso, os efeitos teatrais, os bordões populistas. E esta tem sido a história da América Latina, por vezes imitada aqui mesmo no Brasil. Mas não é nosso jeito de ser.
A Hugo Chavez pouco interessa a integração econômica. Quer do Mercosul um palanque para suas bravatas, para propagar sua Revolução Bolivariana, seja lá o que isso signifique. Para divulgar seu Socialismo do Séc XXI, sem definir exatamente o que prega.
Mas, isso faz enorme eco em outros países, que também não sabem o que querem. Ver Bolívia, Nicarágua e, recentemente, Equador.
Desponta uma liderança, custeada por sua riqueza petrolífera e que melhor seria se promovesse o efetivo desenvolvimento de seu País.
O histriônico coronel supõe-se a reencarnação de Bolivar, grande responsável pelo esfacelamento da América do Sul espanhola. Mesmo que, para esse reconhecimento e aclamação dos povos, tenha que rever a Constituição, permitindo-lhe reeleições sucessivas à Fidel Castro; promover aprovação no Congresso (de independência inferior ao brasileiro) de poderes excepcionais para legislar a implantação do socialismo (?) do século XXI; calar a imprensa e a oposição.
É um caudilho, um bufão, um populista megalomaníaco. É um ditador.
Deve ser adequado à Venezuela (cada povo tem o governo que merece), mas representa um perigo institucional a toda América Latina, em seu processo de amadurecimento político.
Por tudo isso, se o Mercosul já era quase inviável como bloco econômico, pois um sócio possui uma economia maior do que a soma da dos outros, como bloco político é risível, insustentável, sem credibilidade.
A liderança de Hugo Chavez, que está encantando tantos países e populações (foi o mais assediado e aplaudido de todos os chefes de Estado no Copa) é uma ameaça. O Brasil, que tem tentado efetivamente uma integração, poderá, ao final, ser isolado num cerco norte-sul por vizinhos hostis. Chavez, investindo contra castelos de areia e moinhos de vento por ele mesmo imaginados, promove a hostilidade. Desagrega. É um sectário, por natureza.
Sua liderança, hoje inquestionável, somente cairia com a queda dos preços do petróleo, o que só poderia acontecer se o Brasil investisse fortemente no álcool e biodiesel a ponto de influenciar os mercados mundiais.
Por isso, esses programas não recebem os aplausos de Chavez nem da América Latina a ele alinhada. Isso mostraria quão anêmica é a economia e a estrutura social da Venezuela e dos países por ela satelizados.
A voz mais lúcida dessa reunião de cúpula foi da Pres Bachelet, do Chile, ao exortar as autoridades presentes a reduzir a retórica e aumentar as ações práticas. Ou seja, pararem de enxugar gelo e encaixotar fumaça. A buscarem uma efetiva integração energética.
Sente na pele, o Chile, a dependência do gás argentino, com fornecimento interrompido a qualquer soluço político. Concilia o discurso com a busca de fontes além América Latina, para sua segurança. Como o Brasil, aliás, para não depender dos espirros populistas de Morales, teleguiado por Chavez.
Ninguém confia em ninguém, nessa sociedade.
Hugo Chavez é o ovo da serpente. E o Brasil está ajudando a chocá-lo, dando-lhe repercussão.
É bom que estoquemos bastante soro anti-ofídico. Vamos precisar dele.

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