sábado, dezembro 30, 2006

Antunes Fumacê - o Interrogatório

- Dizem que foi por causa da maconha, mas eu, conhecedor dos fatos, tenho obrigação de prestar meu depoimento. Comigo é assim, pau é pau; pedra é pedra...
- Sim, Excelência, vou direto ao assunto.
- Quando conheci o Antunes, ele já passava dos 35. Tabelião-substituto. Queimava os dias apondo uma garatuja em papéis pré-carimbados. Reconhecendo e dando fé.
- Era pontual, não faltava ao serviço. De segundas às sextas, das 9 às 16h, lá estava o Antunes ganhando o pão de cada dia, proporcionado pelo pai de criação da Zenita, trubufu de retrós, ele sim, Tabelião.
- Sim, Sr Juiz, Antunes sempre teve temperamento calmo e contemplativo. Para o Sr saber, dizem que o Antunes nasceu assim. Já no parto, além das tradicionais palmadas, teve o médico de aplicar-lhe beliscões. Respirar, não queria.
- Sim, Sr Juiz, não vou mais comentar fatos alheios à questão.
- Não, Sr Juiz, Antunes era até bem inteligente, fazia tudo de cabeça, memória de prodígio. Só que preferia meditar. Disse-me um dia que conseguiu ficar sem pensar em nada, oco escuro em seu cérebro, vácuo quântico, negação da consciência e da inconsciência. O supra-sumo, estágio restrito a algumas categorias de alguns tribunais.
- Não, Sr Juiz, os de Contas. Sim, Sr Juiz, desculpe, quem sou eu para emitir essas opiniões sobre autoridades. Perfeitamente, entendo minha insignificância.
- Fumava maconha, sim Sr, introduzido no hábito ainda adolescente por sua prima mais velha e pilantrinha. Acompanhado da marijuana, meditava por outros universos por horas. Não, não ficava agressivo, apenas com fala mole e ar abobalhado.
- Sim, Sr Juiz, a prima e as bochechas do Antunes não vêm ao caso.
- É verdade. A sogra, uma cascavel sempre suando pelas rugas das ventas...
- Sim Sr. Juiz, a beleza da distinta senhora tabelioa não é parte do processo.
- Juntavam-se a sogra e a Zenita a mandar nele, sim Sr. "Antunes, vai comprar pão; Antunes, vai no verdureiro; Antunes, vai limpar os vidros; Antunes, leva o Lulu pra fazer xixi."
- Sim, Meritíssimo, as necessidades do Lulu não interessam a este tribunal, embora estejam na origem do crime...
-Sim, minha opinião é impertinente. Desculpe, mais uma vez.
- Foram, sim, por muitos anos. Não, a sogra não morava com ele, mas lá ia aporrinhá-lo todo o dia, às 6 horas da manhã. Como eu sei? Ora, pelo Antunes, quando o demovi de levar a velha para passear no zoológico e jogar-lha aos crocodilos. Claro, seria multado pelo IBAMA por intoxicar os animais, eu...
- Sim, Sr Juiz, a saúde digestiva dos sáurios do zoológico também não vem ao caso.
- É verdade, exasperado pelos grunhidos da velha para que limpasse o cachorro diarréico, esfregou o vice-versa - como se diz? - sim, o fiofó do Lulu no nariz da sogra. Não, Meritíssimo, não estou rindo, é nervoso. Sim, foi com tanta força que arrancou uma berruga centenária e os cabelos daquele monumental nariz. E olhe que o Lulu nem reclamou...
- Sim, Sr Juiz, sei, o Lulu não fala...
- Perfeitamente. Desculpe Sr Juiz.
- Que eu saiba, depois da higiene do Lulu, deu um chute na canela da Zenita, passou a mão na Jurema, cabocla ajeitada...
- Desculpe Meritíssimo, mas as coxas da Jurema...
- V.Exa tem razão. Perdão pela inconveniência.
- Onde ele está? Sei, sim Sr. Pelo menos até o mês passado estava em Alto Paraíso, aguardando o pouso de um disco voador. Na última notícia que tive, estava sentado em posição de lótus - é, aquela dos budistas - meditando numa pedra perto das Almécegas.
- Como, a polícia não o achou? Talvez tenha sido então levado para Marte contra a vontade, pois o disco voador encomendado era para levar a sogra.
- Sim, Sr Juiz, V.Exa afirma e quem sou eu para duvidar de sua sapiência? Se o Sr diz, eu só posso acreditar que discos voadores não existem. Quem sabe, então, Antunes transmutou-se em fumaça de maconha? Há vários relatos de uma nuvem fedorenta, estacionada entre Alto Paraíso e São Jorge...
- Não, Meritíssimo, não precisa. Prometo que não falo mais nada.

(Figuras de Brasília ... é publicada às segundas-feiras - às vezes)

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