Golpe. Redentor de quem?
Tudo se agravou há 150 anos, quando nossas tropas voltaram vitoriosas do Paraguay após severos combates e sua desumanização resultante. Nossos heróis internalizaram o ufanismo com a sensação de salvadores da Pátria. Campo fértil para o Positivismo político, o ambiente da Corte contrastava com o dos campos de batalha. Neste, a rigidez postural, naquele, as composições.
O Exército voltou golpista do Paraguay, promoveu o golpe
republicano, baniu e perseguiu o Imperador, implantou um regime de terror até então
nunca visto, consolidou uma cultura supremacista e, de lá pra cá, pouco mudou.
Não é teoria de conspiração, são fatos, é História.
O Exército nunca se conformou com democracia, pois sua essência, sua formação, não é democrática, e nem poderia ser mesmo. O erro está em querer fazer política.
Nesses 150 anos de sucessivos golpes, sempre surge se autodenominando o salvador da ordem promovendo paralelamente a maior desordem possível.
Sua ânsia é combater. Não tendo inimigos externos,
combate internamente. Combate o pensamento diverso, combate quem se lhe opõe,
combate a própria democracia.
O momento é interessante.
Inconformado com seu papel coadjuvante num Estado de
Direito – vê-se num papel de eterno protagonista – sequer admitem que sua existência
é uma concessão do próprio Estado de Direito. Considera essa posição uma
heresia. Chega ao extremo de arvorar-se tutor e fiador da nacionalidade numa
interpretação esdrúxula do art 142 da Carta Constitucional.
Quem nos guardará dos guardas?
Pois bem, só a desordem lhes reforçaria o argumento de
sua necessidade. A história também mostra, ainda que timidamente no início, que
provocar a desordem cria-lhes o pretexto-argumento de salvadores, sempre por
meio da quebra da ordem democrática com revoluções (golpes) redentoras.
Quebram a democracia, com a retórica de salvar-lhe.
Quebrando-lha, crescem em sua predestinação de comando e mando.
A desordem fomentada não é um fim, mas um meio.
Vivemos tempos estranhos, muito estranhos. 30 anos de
democracia deveriam ter formado uma geração de militares com outra mentalidade,
mas não. Foram 30 anos de doutrinação cultural supremacista em continuísmo cultural
transmitido, turma a turma, geração a geração.
Um descolamento da realidade.
Nesse contexto, o caos provocado por Bolsonaro, quebrando
diariamente os preceitos democráticos, não é por acaso e nem resultado das
ações desse fantoche despreparado.
Ao contrário, era tudo o que precisavam, por isso lhe apóiam
a cada asneira, cada agressão, cada demolição, cada entrega, cada
desestruturação que promove. Nunca apoiaram tanto a um presidente da república,
não por acaso o pior que já tivemos.
A questão não é político-ideológica, mas de cultura
supremacista, fisiologista.
Se só eles podem recolocar o Brasil nos trilhos, é
necessário que o descarrilamento exista. Se não for natural, que seja
provocado.
Simplesmente fomentam, apóiam e aguardam a decomposição
plena para mais uma vez golpearem a democracia.
Como de costume, a pretexto de salvá-la.

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