domingo, janeiro 03, 2021

Golpe. Redentor de quem?

Tudo se agravou há 150 anos, quando nossas tropas voltaram vitoriosas do Paraguay após severos combates e sua desumanização resultante. Nossos heróis internalizaram o ufanismo com a sensação de salvadores da Pátria. Campo fértil para o Positivismo político, o ambiente da Corte contrastava com o dos campos de batalha. Neste, a rigidez postural, naquele, as composições.

O Exército voltou golpista do Paraguay, promoveu o golpe republicano, baniu e perseguiu o Imperador, implantou um regime de terror até então nunca visto, consolidou uma cultura supremacista e, de lá pra cá, pouco mudou.
Não é teoria de conspiração, são fatos, é História.

O Exército nunca se conformou com democracia, pois sua essência, sua formação, não é democrática, e nem poderia ser mesmo. O erro está em querer fazer política.

Nesses 150 anos de sucessivos golpes, sempre surge se autodenominando o salvador da ordem promovendo paralelamente a maior desordem possível.

Sua ânsia é combater. Não tendo inimigos externos, combate internamente. Combate o pensamento diverso, combate quem se lhe opõe, combate a própria democracia.

O momento é interessante.

Inconformado com seu papel coadjuvante num Estado de Direito – vê-se num papel de eterno protagonista – sequer admitem que sua existência é uma concessão do próprio Estado de Direito. Considera essa posição uma heresia. Chega ao extremo de arvorar-se tutor e fiador da nacionalidade numa interpretação esdrúxula do art 142 da Carta Constitucional.

Quem nos guardará dos guardas?

Pois bem, só a desordem lhes reforçaria o argumento de sua necessidade. A história também mostra, ainda que timidamente no início, que provocar a desordem cria-lhes o pretexto-argumento de salvadores, sempre por meio da quebra da ordem democrática com revoluções (golpes) redentoras.

Quebram a democracia, com a retórica de salvar-lhe. Quebrando-lha, crescem em sua predestinação de comando e mando.

A desordem fomentada não é um fim, mas um meio.
Vivemos tempos estranhos, muito estranhos. 30 anos de democracia deveriam ter formado uma geração de militares com outra mentalidade, mas não. Foram 30 anos de doutrinação cultural supremacista em continuísmo cultural transmitido, turma a turma, geração a geração.

Um descolamento da realidade.

Nesse contexto, o caos provocado por Bolsonaro, quebrando diariamente os preceitos democráticos, não é por acaso e nem resultado das ações desse fantoche despreparado.
Ao contrário, era tudo o que precisavam, por isso lhe apóiam a cada asneira, cada agressão, cada demolição, cada entrega, cada desestruturação que promove. Nunca apoiaram tanto a um presidente da república, não por acaso o pior que já tivemos.

A questão não é político-ideológica, mas de cultura supremacista, fisiologista.
Se só eles podem recolocar o Brasil nos trilhos, é necessário que o descarrilamento exista. Se não for natural, que seja provocado.
Simplesmente fomentam, apóiam e aguardam a decomposição plena para mais uma vez golpearem a democracia.

Como de costume, a pretexto de salvá-la.