quarta-feira, agosto 24, 2022

De Proscrito a Mito Parte III – O Limbo 2

Os dois anos passados na Câmara de Vereadores deram a certeza ao oficial insubordinado que seu projeto de poder poderia ser realizado pela política, garantindo o enriquecimento pessoal ao ambicioso capitão, conforme já detectado por seu comandante no início da carreira de oficial. Aprendeu rapidamente os procedimentos para aproveitamento de verbas, sua distribuição e uso como expressão de poder.

 Entendeu que poderia se traduzir num projeto de enriquecimento pessoal. Os dados estavam lançados.
Estreitando as relações com as gerações subalternas de oficiais e até junto a praças, garantiu votos suficientes para lançar-se a Deputado Federal. E introduzir, de quebra, familiares na própria Câmara Municipal, como início da montagem de uma rede familiar de poder.

Sua tática era promover toda espécie de absurdos politicamente incorretos, como forma de ganhar espaços na mídia e estreitar os laços com seus contemporâneos, no aguardo de que as gerações anteriores, que lhe hostilizavam, vestissem o pijama de cetim, ou até melhor, o de madeira.

Não perdia oportunidade de se dizer militar, apesar de sua inadequação, explorar seu passado paraquedista, unidade bem conceituada no Exército.
E, gradualmente a cada eleição, garantindo votos para si e para seus filhos, cada um numa raia própria. Um para a Câmara, outro para Alerj, outro para a própria Câmara Federal, mas por outro estado que não o Rio de Janeiro. A tática era ter voz em todos os plenários e ultrapassar a barreira de representante da Vila Militar para serem representantes dos militares em guarnições dos Estados. Estendeu seu alcance às Polícias Militares, até então consideradas de segunda linha pela estrutura corporativa e supremacista do Exército. Dando-lhes status, passou também a representá-las.
Deve-se a ele a politização das PM e, sintomático, para as eleições deste ano, 2022, há um número recorde de candidatos PM.
Isso é a maior evidência da urgência em ser revista a Constituição quanto à necessidade de desincompatibilização e quarentena para candidaturas de juízes, procuradores, policiais e militares.
Gente a quem a sociedade abdica de meios próprios e delega a defesa de sua segurança, gente que pode matar, prender e julgar, não pode sair diretamente desse exercício de poder delegado para a esfera política.

Em mecanismos de uso das verbas públicas, nos quais se inserem as denúncias de rachadinhas e peculatos, notas frias e reembolsos indevidos, a fortuna familiar se fez.
A fortuna pessoal era segunda perna para a manutenção estratégica do poder. Além disso, corrobora a avaliação funcional de tratar-se de elemento com ambição financeira desmedida.
As acusações de violação e furto de valores nos cofres bancários familiares por ocasião de seu divórcio, acusações públicas, dão ideia da acumulação de valores com origem duvidosa.

A geração dos oficiais mais antigos, porém, foi substituída pela dos novos, os contemporâneos de Bolsonaro atingiram o generalato.
Aí, no governo Dilma, surgiu a Comissão Nacional da Verdade.

Muito embora os generais e oficiais superiores de forma geral, nem fossem oficiais no período maior da repressão e nem tivessem qualquer participação, eventualmente nem conhecimento, nos crimes perpetrados, conheciam oficiais já na reserva - alguns até foram comandados por eles - que participaram ativamente em centros de tortura e execução. Como Ustra, por exemplo.

Os depoimentos colhidos na CNV e as evidências incontestes colocaram muitos militares na berlinda. Desmascararam a vários. Quebraram a empáfia e o bom-mocismo.


A imprensa repercutiu.
https://www.terra.com.br/noticias/brasil/clube-militar-relatorio-da-cnv-e-ilegal-e-revanchista,e4237bbb4d53a410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

https://oglobo.globo.com/politica/clube-militar-reage-relatorio-da-cnv-inocuo-desperdicio-de-dinheiro-publico-14792280

A Lei da Anistia retirou a punibilidade penal desses crimes, porém moralmente muitos foram condenados. A responsabilidade objetiva do Estado reconhecida.
A corporação agiu, se opôs, considerou um ataque revanchista.
Por ser um governo de centro-esquerda, fez ressurgir a antiga e quase esquecida visão maniqueísta da Guerra Fria. A ignorância e má formação intelectual fez o resto.
O Exército em particular e as Forças Armadas em geral, passaram a se opor ao governo e gestar um projeto político e de poder próprio.
O ovo da serpente eclodiu.

Bolsonaro, o capitão antes proscrito, era o único daquela geração de oficiais com atuação político-partidária, o único congressista, o único com voz na mídia, ainda que fosse como piada de mau gosto.
Se não tem tu, vai tu mesmo, o ditado guasca. Virou palavra de consenso nos corredores e bastidores dos altos comandos, nos coquetéis, nos clubes e encontros sociais.
Era a peça que faltava para dar ares de normalidade democrática ao projeto disruptivo de conquista do poder político.

( continua em https://fregablog.blogspot.com/2022/08/de-proscrito-mito-parte-iv-forjando-o.html )