quinta-feira, agosto 25, 2022

De Proscrito a Mito Parte IV – Forjando o Mito 1

 Então, estavam postas as condições.

As afinidades dessa geração de marechais se dirigiam para as teses neoliberais. Não lhes bastaria mais o prestígio e conceito da sociedade, seus méritos deveriam ser bem remunerados. A partir da geração dos anos 70, houve uma ressignificação da meritocracia associada ao supremacismo histórico. Sentiam-se o repositório e última trincheira da competência e patriotismo. Nada mais adequado do que assumirem o poder político e redirecionarem o Brasil no contexto da globalização neoliberal das competências específicas como vantagens competitivas.

Ah! bons tempos de 64 que não voltam. Era tão mais simples e fácil assumir o poder político. Agora não dava mais, exigia planejamento, peças movimentadas com precisão, convencimento e mobilização e, acima de tudo, manter, ainda que figurativamente, a normalidade democrática.

A Lava-Jato conduzida por uma facção na disputa de poder em raia própria, poderia ser o gatilho necessário para a operação psicológica que levasse à conquista do poder em 2018.
No entanto, por correr com planos próprios, em algum momento haveria confronto. Poderiam no máximo ser aliados circunstanciais para desestabilização do governo social-democrata, até então absurdamente bem avaliado.

Quem poderia ser confiável para o projeto político-militar? Não havia mais militares na política, fato até reconhecido por Geisel lá em 93.

Surge então a figura do colega insubordinado, mas suficientemente flexível moralmente desde que seu próprio projeto de poder político-econômico fosse atendido. Um militar, até então execrado, era hora de ressuscitá-lo.
Nas ruas, a indignação inventada na Lava-Jato e tornada verdadeira pela mídia de massa, levava já o governo às cordas. Não o suficiente ainda para o nocaute, mas cambaleante e enfraquecido para os próximos rounds.

Bolsonaro era candidato a sua sétima legislatura consecutiva, sua base entre os militares já lhe garantia uma eleição certa. A ele e seus filhos.
Era sim o político medíocre, do fundo dos plenários e com atuação parlamentar pífia e polêmica, sem pudor ou compostura para agredir, xingar, falar absurdos.
Com boa imagem junto às polícias, especialmente as contaminadas pelas milícias.
Um defensor da violência oficial, da truculência autoritária, do massacre de vulneráveis.
E, por incrível que possa parecer vindo de quem vinha, com um discurso de honestidade capaz de enganar até alis-babás e irmãos-metralhas.

O evento de formatura dos novos oficiais na AMAN era o palco perfeito para sua reintrodução  nos ambientes castrenses. Seu discurso então, colocando-se como um deles e dividindo a bravata heroica de dar a vida pelo Brasil no afã de redirecionar o Brasil para a direita, convocando-os para essa empreitada, foi respondido por gritos semi-histéricos de Mito! Mito! pela cadetada, entusiasmada por ser incluída no projeto messiânico de salvação nacional.
Aspirantes de 2014, primeiros-tenentes em 2018, capitães de 2020. Timing perfeito para a construção do projeto de poder político.
Vale a pena rever a cena, agora com nova visão.

https://youtu.be/MW8ME9S87SI

Até o lema da tropa paraquedista, embora sua composição ilógica por tradução mal feita, foi assumida como palavra de ordem de campanha política. Tudo subliminar.
O passo seguinte seria retirar a coalizão de centro-esquerda do poder.

( continua em https://fregablog.blogspot.com/2022/08/de-proscrito-mito-parte-iv-forjando-o_27.html )