De Proscrito a Mito Parte IV – Forjando o Mito 2
O plano para tomada do poder político pelos militares foi
favorecido pelas circunstâncias do projeto de poder gestado na Lava-Jato.
A
demonização da política com a utilização de meios até ilegais era a tática dos
togados para assumirem o poder. Os fardados, incontestavelmente mais capazes do
que os togados para formular estratégias complexas e elaboradas,
aproveitaram-se do movimento judicial para a derrubada do governo de
centro-esquerda sem os desgastes decorrentes.
O passo seguinte seria a tomada
do poder em eleições com imagem de
regularidade. A operação psicológica estava em andamento.
Bastava manter as aparências no jogo duplo.
Simultaneamente, escolhido para assumir o poder político em
nome dos militares na primeira eleição, começou a ganhar todos os espaços nos
quartéis, não havia solenidade em que não lhe fosse dado palanque. Não só de
oficiais, mas também de praças. Desde curso de cabo até novas turmas de
policiais das PM.
Onipresente, aproximando e radicalizando o discurso. Uma
forma de unir as corporações como uma sociedade à parte.
Operado o impedimento da presidenta, essencialmente por
falta de apoio político como preconizou Jucá, assume o Vice já comprometido com
as teses neoliberais tão do gosto dos militares, com quem negociou compromissos
para estabilidade do mandato tampão.
Nesse contexto, generais ocuparam funções e marcaram presença já dentro do
Planalto e também no STF.
Restavam dois anos para que a eleição fosse
disputada, os políticos togados, com o apoio da mídia de massa, buscavam anular
a imagem popular de Lula, necessário para a disputa de poder.
Os políticos
fardados deixaram os togados com esse desgaste, não representavam ameaça a seus
planos para 2018. Para 2022 haveria tempo de serem neutralizados. Tudo a seu
tempo.
A única ameaça real para
2018, Lula, mesmo preso era o favorito.
Quando ocorreu a possibilidade real de
poder disputar as eleições no julgamento de um HC no STF, aí sim interferiram,
ameaçando e intimidando os Ministros do Supremo para que a candidatura fosse impedida.
"Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao
povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem
está preocupado apenas com interesses pessoais?
Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos
os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz
social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões
institucionais", foi a mensagem do comandante do Exército, Villas Bôas.
Surtiu o efeito, o HC foi negado, até porque, nos bastidores e havendo um dos
generais como assessor do presidente do STF, certamente o recado explícito foi
transmitido.
A intenção de intervir e concretizar o golpe foi reconhecida posteriormente
pelo próprio Villas Bôas em entrevista à Folha.
https://www.conjur.com.br/2018-nov-11/villas-boas-calculou-intervir-stf-hc-lula.
O ápice da operação
psicológica foi a facada em Juiz de Fora. Intencional e articulada, ou não,
assegurou a eleição. Pode ter sido um golpe de sorte, pode ter sido somente um
golpe. Talvez a história um dia desvende. Mas o fato é que o Mito, forjado no
planejamento para a tomada do poder, foi eleito.
Os passos seguintes deveriam
neutralizar os políticos togados, já não eram necessários, e enfraquecer as
instituições. As duas coisas começaram a acontecer já no dia da posse do novo
governo.
Do Alto Comando do Exército de 2016, pelo menos 90% passaram a ocupar funções
no Executivo, além de alguns generais ainda na ativa.
O governo militar por origem e neoliberal por doutrina chegou ao poder central.
Daí em diante o Mito passou a ser simplesmente a ferramenta para exercício do
poder.
Aparentes dissidências começaram a surgir, muito provavelmente conforme o planejamento. Haveria necessidade de aparentar uma ala legalista para se contrapor à disruptiva. Esse jogo de cena seria necessário até para a estabilidade na ruptura institucional e manutenção do poder.
Habilmente assumiram o duplo papel de situação e oposição, como forma de neutralizar o fortalecimento de alguma corrente oposicionista. Para isso contaram com uma parte da imprensa que dava divulgação, consciente ou inconscientemente, às notas plantadas, às inconfidências ao pé de orelha.
E assim chegamos à eleição de 2022 com um país desconstruído e desarticulado, dividido, sucateado, com ódios explícitos sob olhar de um deus particular e armamentista, que resolveu ser político também.
Talvez por tédio no paraíso.
(continua em https://fregablog.blogspot.com/2022/08/de-proscrito-mito-parte-v-epilogo.html )


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