sexta-feira, junho 15, 2007

O Federal

Os desafetos e vítimas afirmam que foi de nascença. Que seu fígado padecia de podridão original. A mãe, ao contrário, atribuía o mal a um nó-nas-tripas causado por intoxicação com geléia de murici.
Como em tudo neste mundo, a origem das coisas é um mistério.
O fato é que a incontrolável flatulência de Dario, por muito tempo, foi o assunto em todas as mesas, do Bar do Professor até o muquifo da Maria Benguela.
Por Dario ninguém o conhecia. Federal passou a ser mais que seu codinome. Era uma referência. Fui atrás da razão e a melhor explicação que obtive foi de um bêbado contumaz, freqüentador assíduo e cativo do Pinga Nimim e que constantemente era posto para correr, várias vezes abandonando cervejas e tira-gostos. "Esse foi federal!" bradou o pinguço em protesto, ao bater em retirada sem pagar a conta. O apelido pegou.
É que Dario, assim como a gestão do Estado, estava sempre fedendo, todo mundo sabia quem era o responsável, mas ninguém conseguia provar.
Federal, sem o saber, faria sucesso como controlador de tumultos. Multidões dispersavam-se sem cassetetes e jatos d'água; ônibus esvaziavam-se na primeira parada, incluindo o motorista e cobrador; filas de banco dissolviam-se em passes de mágica, acompanhadas da fuga de escriturários e gerentes.
Foi detido várias vezes. Em todas foi solto sem habeas-corpus, por protestos uníssonos de presos antigos e delegados de todas as idades. Foi acusado de perturbação à ordem pública, atentado violento à vida, ameaça de genocídio. Em todos os casos, os inquéritos restaram inconclusos por abandono dos Meritíssimos e do Ministério Público. Suas excelências não suportavam conduzir o interrogatório.
O caso do Federal assumiu proporções científicas.
O Ibama encomendou um estudo à UNB sobre a composição maléfica dos gases, suspeitos de exterminar espécies de marimbondos do cerrado. O laudo químico apontou 95% de gás sulfídrico, 3% de anidrido sulfúrico e o restante distribuido em gases poucos nobres, derivados diretamente de putrecina e cadaverina.
Bem que o Ministério da Saúde tentou utilizar a formulação no combate à dengue, mas a pretensão esbarrou em algum parágrafo do artigo 5º da Constituição, que nem sei bem qual é, mas que garantia o direito autoral. Difuso e confuso esse direito. A propriedade da invenção seria da mãe. A produção, do Federal. A quem pagar os royalties? Salvaram-se, assim, os mosquitos.
Mais afeito às luzes dos holofotes e à escuridão dos cofres-fortes do que à diplomacia, um deputado elaborou uma moção ao Pres Lula sugerindo barganhar o Federal nas discussões do protocolo de Doha. A ameaça seria colocá-lo no cargo de adido ambiental na embaixada em Washington, apesar dos protestos inevitáveis do embaixador em particular e do Itamaraty em geral.
A CIA soube do plano. Preventivamente o informou a Bush, que mandou Condolezza ligar para o Lula e protestar. Guerra química não vale.
Assim Federal levava a vida. Bufando. Um arrasa-quarteirão ambulante.
Passou num concurso em primeiro lugar, pois os demais concorrentes fugiram da sala. O fiscal também escafedeu-se, mas do fato somente o Federal foi testemunha. Foi empossado.
Na repartição em que trabalhava, após protestos e ameaça de greve desde a primeira hora, resolveram confinar Federal na sala da xerox, à prova de vazamentos. Isso foi o fim do Federal.
No final do dia, explodiu. Antes mesmo de morrer asfixiado.
Ontem foi o velório do sapato dele. Única peça que sobrou.

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