terça-feira, janeiro 18, 2022

A Cruz e a Estrela de Davi

 De verdade, não há limite para a ignorância. O fundo do poço é de trevas infinitas, sempre pode haver um passo a mais na imbecilidade.

Essa foto é interessante pelo seu significado, pois expressa melhor com a imagem do qu poderia ser feito com palavras, pois o conceito de patriotismo, por si só, é vago e difuso e pode simplesmente resumir o que de pior o gênio humano conseguiu desde o Iluminismo.

Bilac, em 1904, idealizou o culto à Pátria em verso.

A Pátria

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera,
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha…
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

 Criança! não verás pais nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste...

A floresta, em célere caminho à extinção.
Desde o poema, as florestas de araucárias foram extintas, o Pampa virou lavoura, a Mata Atlântica com menos de 10% de sua cobertura original, a Caatinga queimou em carvão, o Cerrado deu lugar a pastagens e lavouras. A Amazônia ainda resiste por seu gigantismo, mas não vai longe, todo Tocantins e sul do Pará já era.
A fúria devastadora não é saciada.

O bioma Pantanal secando, rios caudalosos, como o Paraná e o Paraguai, já não são navegáveis em todo ano. Nem o Tietê, o rio de verdade dos tupis.

E a boa terra pátria, que jamais negaria a quem trabalha o pão que mata a fome, o teto que agasalha convive com dezenas de milhões passando fome e se abrigando precariamente em favelas e amontoados indignos, pois a terra pátria tem dono com escritura lavrada em cartório e a periferia das megalópoles, e até das cidades médias, servem de almoxarifado para depósito de semiescravos.

Bem se nota que o orgulho ufano de Bilac manifestado há mais de um século, hoje soa ridículo quando confrontado com a realidade.

Pátria é isso mesmo? Tem certeza?
E os ditos conservadores patriotas, milionários donos de offshores com suas fortunas aqui obtidas e lá usufruídas? São esses os que precisam incutir esse falso patriotismo, encher a boca para falar de Pátria, mas por um simples motivo. Precisam manter uma Pátria a seu serviço.

Enfim, me desviando do tema, volto a ele. A foto e o patriotismo bolsonarista.

Essa turba do patriotismo bolsonarista é exatamente aquela doutrinada pelos que mantêm uma Pátria a seu serviço, para sua acumulação e sua independência apátrida.
Acham, foi-lhes ensinado que patriotismo é louvar a bandeira e cantar um hino. Ferve seu peito de orgulho ao escutar os primeiros acordes do hino.
Foram doutrinados a isso, para nem pensar a natureza da Pátria que lhes venderam.
Pois que há pátrias alheias maiores a serem louvadas e aí está o simbolismo.
A bandeira nacional servindo de capa, saiote e capacho.

A bandeira do império, da matriz, a stars&stripes esticadinha em primeiro plano.
E a de Israel, também. Aí cabe outra observação.
A patifaria neoevangélica, que navega na venda da esperança falaciosa e na grana que pode ser obtida com sua venda, faz da política questão de fé e dá conotação de cristianismo ao símbolo político de um país relativamente teocrático não cristão.
A bandeira de Israel entra em cena para substituir a Cruz.

Será mesmo que é só por ignorância? Acho que não.
Para esses patriotas bolsonaristas lhes bastam a bandeira dos Estados Unidos e de Israel.
A do Brasil pode entrar de coadjuvante, de enfeite mesmo. Tá de bom tamanho.
Por isso são conservadores e patriotas.