Agropop, Canalhas do Plimplim e Geopolítica do Capital
Há uma piadinha gaúcha em que um guasca, isolado
historicamente no interior ainda ermo, viu um dia passar um trem na linha
férrea recém-construída. Nunca tinha visto alguma coisa assim, soltando fumaça
pelas ventas e assobiando. Decidiu pegar o bicho.
Preparou seu
laço de 7 braças, esporeou o pingo e garroteou a chaminé. Voaram ele e o
cavalo.
Levado a um
hospital em Porto Alegre para tratar das quebras, dois meses depois já
caminhava, rengueando de uma perna e ainda dolorido. Foi conhecer a Rua da
Praia. Numa dessas, passou em frente a Americanas e viu um trenzinho de
brinquedo. Sacou seu 32 e deu três tiros. Preso, na delegacia, explicou ao
delegado:
- Doutor, vô le contar uma coisa. Esse bicho tem que matar enquanto é pequeno, dispois que ganha campo ninguém segura.
- Doutor, vô le contar uma coisa. Esse bicho tem que matar enquanto é pequeno, dispois que ganha campo ninguém segura.
O Capital decidiu: o Brasil deve-se reduzir a um fornecedor
agrícola, inteiro ou em partes.
Detentor de enormes riquezas naturais, localizado em região pouco
suscetível a cataclismos naturais, com água e sol fartos, grande território
contínuo sem conflitos fronteiriços e numerosa população, o Brasil surge como
uma das potências mundiais naturais. Nos conceitos teóricos, sua força nacional
é invejável.
Outros países com territórios equivalentes e grandes populações
são naturalmente consideradas potências: Estados Unidos, China, Rússia. Mas não
o Brasil, relegado a uma posição subalterna e terceiro-mundista.
O Capital não deseja sua independência, apenas o quer como
seu almoxarifado e lavoura. Decidido que seu papel é de fornecedor de
matérias-primas e de comida. Não lhe é permitida insubordinação ao papel predeterminado.
E os cordéis são manejados.
Na primeira década deste século, o Brasil tentou.
Apostando em
seu mercado interno de consumo e com medidas protecionistas, fortaleceu sua
capacidade produtiva. Apostando na necessidade de desenvolvimento científico e
tecnológico, massificou o acesso escolar e investiu na formação de cientistas.
Na contramão
do propugnado pelo Capital, adotou políticas de redução das criminosas
assimetrias sócio-econômicas, como elemento de pacificação interna. Com a
consciência de que independência política somente é sustentável com a
conjugação de independência econômica e capacidade de defendê-la, ampliou sua
capacidade de defesa. Utilizou como fontes de recurso iniciais nesta etapa exatamente
o que o Capital dele espera: o agronegócio e riquezas naturais não renováveis.
E estendeu
as asas de influência comercial e econômica em quintais menos prioritários aos centros do Capital, como África, América
Latina.
Tudo isso de forma sorrateira, cuidando para não parecer uma
ameaça, compondo e transigindo, cedendo no menor para obter o maior.
Tudo com
um alto custo para minimizar riscos, numa sociedade historicamente
conservadora, dogmática, inculta e arbitrária. E chegou-se tangenciar a
ruptura, o grito de independência, a conquista de um destaque autônomo.
Mas não eram planos geopolíticos que essa etapa fosse
provisória. Haveria que matar as pretensões, estava fugindo dos planos
mundiais. Passou a ser uma ameaça à ordem estabelecida. Aprenderam com as
experiências na Rússia, na China e até em Cuba, esta inclusive sem poder
nacional.
O bicho tem que matar enquanto é pequeno.
Veio o golpe como instrumento e, com ele, a reversão de um
projeto nacional, cumprindo à risca as ordens recebidas.
Congelem-se
os recursos para a educação, liquidem-se as pretensões de desenvolvimento
científico, interrompam-se políticas sociais e trabalhistas, pois a fome
propicia mão de obra barata e descartável, revejam-se políticas ambientais,
como forma de ampliar áreas agricultáveis, transfiram-se ao controle direto do Capital
as riquezas não renováveis.
O país
deve-se limitar ao papel pré-estabelecido de exportador de alimentos e recursos
e não se meter a besta. Se necessário, que seja dividido e partilhado diretamente
o butim.
Utilizem-se
os meios de comunicação, bem pagos, para esclarecer ao povo que esse destino,
predefinido estrategicamente nos gabinetes, é nobre, o melhor que se possa ter.
E que o real
perigo é o comunismo, manobra diversionista sob medida para uma sociedade
conservadora e inculta, cantilena massificada por décadas de bombardeio midiático
e que sempre fará sentido a segmentos patriarcais, patrimoniais, misóginos,
escravistas e machistas.
E, acima de
tudo, ignorantes.
Afinal, o Agro é Pop.

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