Capítulo XXV — Mba’ita (Mulheres de Bronze e Aroeira)
A notícia era preocupante. Os portugueses, com suas artimanhas e composições, expandiam o domínio sobre territórios espanhóis. Após a descoberta de ouro no Mato Grosso, o caminho das monções consolidou-se, estabelecimentos fixos foram implantados por pioneiros e aventureiros, vilas surgiam. E o rio Paraguai era vital, o melhor caminho. Não à toa, já haviam firmado pé na margem direita, uma forma de assegurar sua livre navegação e mantê-la conforme seu interesse.
Agora fundavam um forte também na margem direita, cada vez mais ao sul.
Felizmente, pensava o governador-geral da província do
Paraguay Pedro de Melo, haviam se enganado na execução das ordens. O
capitão Mathias Ribeiro da Costa, confundindo a descrição, o havia construído a
quase trezentos quilômetros ao norte da posição projetada. Tomara o Pão de
Açúcar pelo morro da Marinha, errara o Fecho dos Morros.
De pouco adianta o domínio do montante sem que a jusante esteja
controlada, pensou Pedro de Melo. A neutralização da ganância portuguesa
somente seria barrada se a navegação rio acima pudesse ser contida.
Ao sul da Nossa Senhora da Assunção, aproximadamente umas dezenas de
léguas, o rio fazia uma curvatura côncava aguda, num sítio chamado pelos
indígenas de Mba’ita.
Naquele ponto a navegação poderia ser totalmente controlada. Decidiu
guarnecê-la.
Voltavam os dois jovens de San Antonio com as montarias a passo, em conversa animada. Ela, Mme. Guillemot, casada com Philippe-Eugène Guillemot, cônsul francês acreditado em Assunção, jovem senhora na flor da beleza madura, cabelos negros caídos na face rosada pelo sol, mestra na arte da sedução e dos amores furtivos. Ele, Clement Hopkins, irmão do cônsul norte-americano e industrial no Paraguay. Haviam ido a passeio naquele sábado a San Antonio, onde os Hopkins possuíam uma manufatura de tabaco, distante pouco mais de duas léguas de Assunção.
Haviam percorrido cerca de uma hora, lhes parecia cinco minutos na
conversa entremeada por risos e galanteios. Estacaram numa curva da estrada.
Havia uma boiada a caminho da Capital impedindo a passagem.
Conduzia a boiada o soldado cavalariano Augustin Severo. Hopkins
determinou que o boiadeiro desocupasse a estrada.
Com o susto e a dor, Clement deu de rédeas e voltou, acompanhado da Mme. Guillemot para o estabelecimento em San Antonio, onde seu irmão, o cônsul, decidira passar a noite. Ao chegar lá relatou o ocorrido com as tintas mais negras de sua imaginação e vaidade masculina ferida perante sua pretensa conquista. Passaram a noite em San Antonio os três.
- Não me impeçam, sou o cônsul americano e exijo falar agora com o
presidente, irrompeu na Casa do Governo aos gritos o jovem vestido com roupa de
montaria e um rebenque na mão. “Saiam da frente”, bradava enquanto abria
caminho aos empurrões. Carlos López estava em sua mesa de trabalho quando a
porta abriu-se bruscamente.
Em meio a vozes alteradas e insultos sobre como um soldado escuro de um país semiprimitivo atreveu a bater-se nada menos com o irmão do cônsul dos Estados Unidos, exigia pronta reparação pelo desaire, um pedido público de desculpas para lavar o ultraje recebido.
López, surpreendentemente controlado e calmo apesar das ofensas
recebidas, disse-lhe que apresentasse suas queixas a Jose Falcan, Ministro de
Negócios Estrangeiros. Mas a arrogância e intempestividade não ficariam
impunes.
López cancelou as credenciais diplomáticas, determinou o encerramento do
estabelecimento em San Antonio e anulou uma negociação em andamento para a
aquisição de terras por Hopkins.
Expulso do país, Hopkins embarcou num navio da armada americana que
estava fundeado em Assunción e partiu rumo a Buenos Ayres. Em Corrientes
encontrou-se com o senador americano Buckalew, portador do tratado de paz e
comércio firmado entre o Paraguay e os Estados Unidos, para ratificações
protocolares. O capitão do navio explicou que não poderia conduzi-lo à
Assunção, face às recentes desinteligências diplomáticas e Hopkins apresentou
suas queixas e pleitos de reparação.
O assunto repercutiu no Congresso norte-americano de forma
surpreendente. Uma comissão parlamentar recomendou que se fizesse uma
demonstração de força, como forma de exigir do governo paraguaio as satisfações
aos Estados Unidos e aos interesses de seus cidadãos, a quem cabe defender a
integridade e bem-estar onde quer que estejam.
Em consequência, os Estados Unidos deslocaram uma poderosa frota para
exigir a reparação do governo paraguaio ao insulto pretensamente recebido por
Hopkins. A frota compunha-se de 12 navios a vapor e 7 a vela, mais um navio
hospital, num total de 20 embarcações guarnecidas por 2.500 soldados e 200
canhões.
Até então, foi a frota mais poderosa que havia zarpado dos Estados
Unidos para atuação bélica no estrangeiro.
Em escala no Rio de Janeiro, o governo brasileiro, por meio de seu
ministro Paranhos, tentou dissuadir o caráter belicista e punitivo, sem
sucesso.
Prevenido do fato, Carlos López decidiu guarnecer Humaitá com 12.500
homens e mais uma reserva de 16.000, como forma de proteger Assunción da
invasão anunciada.
Chegando a esquadra punitiva em Buenos Ayres, a notícia da
impossibilidade de ultrapassar Humaitá e chegar a Assunción abalou o ímpeto
bélico. A certeza de que encontrariam sepultura nas águas barrentas do rio
Paraguai e o vexame de uma derrota certa da grande potência por um país
considerado inculto e fraco, derreteu a arrogância e abriu espaço à mediação
pelo presidente da Argentina, Urquiza, que mantinha boas relações de amizade
com o Paraguay.
Um acordo de amizade foi finalmente firmado entre o Paraguay e os Estados Unidos e frustrou-se a invasão militar americana, objetivo da expedição.
Também, pela primeira vez e em definitivo, justificou-se a ação do
espanhol Pedro de Melo ao fortificar Mba’ita há quase um século. Só não
foi contra os portugueses, como havia imaginado.
Humaitá nunca em sua
história haveria de ser derrotada pelas armas. E quando vencida pelo sítio da
Tríplice Aliança, caiu em pé.

1 Comments:
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