sexta-feira, novembro 10, 2023

Capítulo XXV — Mba’ita (Mulheres de Bronze e Aroeira)

 A notícia era preocupante. Os portugueses, com suas artimanhas e composições, expandiam o domínio sobre territórios espanhóis. Após a descoberta de ouro no Mato Grosso, o caminho das monções consolidou-se, estabelecimentos fixos foram implantados por pioneiros e aventureiros, vilas surgiam. E o rio Paraguai era vital, o melhor caminho. Não à toa, já haviam firmado pé na margem direita, uma forma de assegurar sua livre navegação e mantê-la conforme seu interesse.

Agora fundavam um forte também na margem direita, cada vez mais ao sul. Felizmente, pensava o  governador-geral   da  província do Paraguay  Pedro de Melo, haviam se enganado na execução das ordens. O capitão Mathias Ribeiro da Costa, confundindo a descrição, o havia construído a quase trezentos quilômetros ao norte da posição projetada. Tomara o Pão de Açúcar pelo morro da Marinha, errara o Fecho dos Morros.

De pouco adianta o domínio do montante sem que a jusante esteja controlada, pensou Pedro de Melo. A neutralização da ganância portuguesa somente seria barrada se a navegação rio acima pudesse ser contida.

Ao sul da Nossa Senhora da Assunção, aproximadamente umas dezenas de léguas, o rio fazia uma curvatura côncava aguda, num sítio chamado pelos indígenas de Mba’ita. 

Naquele ponto a navegação poderia ser totalmente controlada. Decidiu guarnecê-la.

 Voltavam os dois jovens de San Antonio com as montarias a passo, em conversa animada. Ela, Mme. Guillemot, casada com Philippe-Eugène Guillemot, cônsul francês acreditado em Assunção, jovem  senhora na  flor da beleza madura, cabelos negros caídos na face rosada pelo sol, mestra na arte da sedução e dos amores furtivos. Ele, Clement Hopkins, irmão do cônsul norte-americano e industrial no Paraguay. Haviam ido a passeio naquele sábado a San Antonio, onde os Hopkins possuíam uma manufatura de tabaco, distante pouco mais de duas léguas de Assunção.

Haviam percorrido cerca de uma hora, lhes parecia cinco minutos na conversa entremeada por risos e galanteios. Estacaram numa curva da estrada. Havia uma boiada a caminho da Capital impedindo a passagem.

Conduzia a boiada o soldado cavalariano Augustin Severo. Hopkins determinou que o boiadeiro desocupasse a estrada.

- Índio vagabundo, afasta essa boiada imediatamente do caminho da senhora consulesa e do cidadão americano, gritou. Sob o olhar estupefato do soldado, ainda aos gritos, tomou a iniciativa de dispersar a boiada, com tiros de pistola em meio aos xingamentos pelo desaforo. Não gostou Augustin, interpelou-o indignado com as ofensas e com o estouro da boiada. E desferiu-lhe um planchaço de sabre no ombro.

Com o susto e a dor, Clement deu de rédeas e voltou, acompanhado da Mme. Guillemot para o estabelecimento em San Antonio, onde seu irmão, o cônsul, decidira passar a noite. Ao chegar lá relatou o ocorrido com as tintas mais negras de sua imaginação e vaidade masculina ferida perante sua pretensa conquista. Passaram a noite em San Antonio os três. 

- Não me impeçam, sou o cônsul americano e exijo falar agora com o presidente, irrompeu na Casa do Governo aos gritos o jovem vestido com roupa de montaria e um rebenque na mão. “Saiam da frente”, bradava enquanto abria caminho aos empurrões. Carlos López estava em sua mesa de trabalho quando a porta abriu-se bruscamente.

Em meio a vozes alteradas e insultos sobre como um soldado escuro de um país semiprimitivo atreveu a bater-se nada menos com o irmão do cônsul dos Estados Unidos, exigia pronta reparação pelo desaire, um pedido público de desculpas para lavar o ultraje recebido.  

 López, surpreendentemente controlado e calmo apesar das ofensas recebidas, disse-lhe que apresentasse suas queixas a Jose Falcan, Ministro de Negócios Estrangeiros. Mas a arrogância e intempestividade não ficariam impunes. 

López cancelou as credenciais diplomáticas, determinou o encerramento do estabelecimento em San Antonio e anulou uma negociação em andamento para a aquisição de terras por Hopkins. 

Expulso do país, Hopkins embarcou num navio da armada americana que estava fundeado em Assunción e partiu rumo a Buenos Ayres. Em Corrientes encontrou-se com o senador americano Buckalew, portador do tratado de paz e comércio firmado entre o Paraguay e os Estados Unidos, para ratificações protocolares. O capitão do navio explicou que não poderia conduzi-lo à Assunção, face às recentes desinteligências diplomáticas e Hopkins apresentou suas queixas e pleitos de reparação.

O assunto repercutiu no Congresso norte-americano de forma surpreendente. Uma comissão parlamentar recomendou que se fizesse uma demonstração de força, como forma de exigir do governo paraguaio as satisfações aos Estados Unidos e aos interesses de seus cidadãos, a quem cabe defender a integridade e bem-estar onde quer que estejam.

Em consequência, os Estados Unidos deslocaram uma poderosa frota para exigir a reparação do governo paraguaio ao insulto pretensamente recebido por Hopkins. A frota compunha-se de 12 navios a vapor e 7 a vela, mais um navio hospital, num total de 20 embarcações guarnecidas por 2.500 soldados e 200 canhões. 

Até então, foi a frota mais poderosa que havia zarpado dos Estados Unidos para atuação bélica no estrangeiro.

Em escala no Rio de Janeiro, o governo brasileiro, por meio de seu ministro Paranhos, tentou dissuadir o caráter belicista e punitivo, sem sucesso.

Prevenido do fato, Carlos López decidiu guarnecer Humaitá com 12.500 homens e mais uma reserva de 16.000, como forma de proteger Assunción da invasão anunciada.

Chegando a esquadra punitiva em Buenos Ayres, a notícia da impossibilidade de ultrapassar Humaitá e chegar a Assunción abalou o ímpeto bélico. A certeza de que encontrariam sepultura nas águas barrentas do rio Paraguai e o vexame de uma derrota certa da grande potência por um país considerado inculto e fraco, derreteu a arrogância e abriu espaço à mediação pelo presidente da Argentina, Urquiza, que mantinha boas relações de amizade com o Paraguay.

 Um acordo de amizade foi finalmente firmado entre o Paraguay e os Estados Unidos e frustrou-se a invasão militar americana, objetivo da expedição. 

Também, pela primeira vez e em definitivo, justificou-se a ação do espanhol  Pedro de Melo ao fortificar Mba’ita há quase um século. Só não foi contra os portugueses, como havia imaginado. 

Humaitá nunca em sua história haveria de ser derrotada pelas armas. E quando vencida pelo sítio da Tríplice Aliança, caiu em pé.

1 Comments:

Anonymous Jackpot City said...

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11:48 AM  

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