sexta-feira, junho 23, 2023

Selva Terrorista - Parte I - Brasil 2035


A história somente se escreve com fatos e esses, no mais das vezes, somente conseguem ser desenhados a partir das consequências. A abordagem analítica, nesse ponto, se descola da dialética. Enquanto a analítica trata de fatos concretos, consequentes e expressados em números e estatísticas, medidas e indicadores, a dialética busca o entendimento das causas, dos antecedentes aos fatos, na elaboração de tessitura de variáveis que possam ter servido de motivações.

Quanto mais possam explicar os fatos, mais sentido farão.
Esse é o exercício do livre pensar. Diferente do livre constatar.

É fato que, ainda de forma velada, o golpe real já havia ocorrido em 2016, fruto da eficaz politização dos quartéis iniciada explicitamente em 2014.
Só não viu quem não quis, essa abordagem já foi por demais exposta por vários analistas e inclusive em matérias neste blog. Dentre todos, destaco as exposições de Marcelo Pimentel, coronel da reserva, em permanente alerta de que o movimento tramado ainda no governo Dilma para ocupação do poder pelos militares levaria inexoravelmente à desmoralização e comprometimento da imagem da corporação.
A ocupação militar do poder político parece evidenciado no papelório gerado no Instituto Villas Bôas apelidado de Brasil 2035 (https://averdade.org.br/2022/05/projeto-nacao-o-brasil-em-2035-plano-de-poder-para-alguns/).

Foto Midia Ninja
Simbolicamente, outros vinte e um anos planejados a partir de 2014. Sabe-se se lá se em comemoração ao meio século do outro golpe, o de 64, de triste memória.
No entanto, também parece evidente que, desta vez, o poder militar assumiria o poder político pelos meios e instrumentos constitucionais.
A conspirata de 2016 instalou no poder o sucessor legal da presidente deposta dentro dos ritos legais. A forma foi preservada mutatis mutandis, tal e qual ocorreu com Chavez na Venezuela. O modelo planejado foi muito similar.
Qual teria sido o plano?

Inicialmente a promoção de uma figura política dando-lhe a projeção até então inexistente, a garantir viabilidade eleitoral em 2018. Durante o governo tampão pelo substituto legal, cujo golpe político-parlamentar contou com o apoio comprometido das Forças Armadas, da grande mídia e do Judiciário, por ação ou covardia frente à opinião pública. Para garantia do plano de vitória eleitoral em 2018, segmentos militares ocuparam posições-chave na administração, que vão desde a recriação do GSI, com tentáculos paralelos aos próprios ministérios, à indicação de generais para presença permanente no Judiciário, ao ataque e demonização da política e, quando se fez necessário para afastar a única ameaça à vitória eleitoral de 2018, o ataque explícito ao STF.
Eleito o candidato indicado, um fantoche político reconhecidamente desclassificado até pelas próprias Forças Armadas que lhe escolheram, fomentaram e fortaleceram como única alternativa política circunstancial, além da ocupação de funções na burocracia governamental por cerca de oito mil militares nas funções mais diversas, fica mais do que caracterizado tratar-se de governo militar.
No entanto, havia necessidade de manutenção do poder.

Durante quatro anos foi promovida intensa campanha de desgaste das demais instituições do Estado.
A campanha psicológica, reconheça-se, foi bem articulada e desenvolvida. E poderia até ter alcançado sucesso e propiciado profunda reforma constitucional, ou mesmo uma nova constituição (modelo chavizta?) não fosse uma pandemia que, conduzida de forma incompetente e criminosa, abalou a confiança e respeito adquiridos pela intensa campanha midiática.
O balde de água fria na fervura militar forçou uma mudança tática.
A reeleição do Fantoche passou a ser um imperativo, porém compondo a chapa com o governante desejado. O impedimento futuro do presidente reeleito, perfeitamente viável tanto pelos crimes come tidos como pelo rebalanceamento dos apoios políticos, asseguraria a assunção do vice-presidente, verdadeiro candidato das forças armadas ainda que sem grande apoio popular, mantendo absolutamente as regras constitucionais. Os passos seguintes, tais como nova constituinte, redirecionamento e reposicionamento nacionais a correntes neoliberais e o fim do incipiente projetado estado de bem estar social, tudo dentro do projeto Brasil 2035.

O reconhecimento pelo Judiciário dos vícios irremediáveis nos processos no âmbito da chamada Lava Jato, evidentemente influenciado pelos ataques promovidos pelo governo militar e já se percebendo como a próxima vítima, resultou na anulação dos processos viciados. O que trouxe novamente à arena política o candidato favorito que havia sido alijado da disputa em 2018 exatamente pelas manobras midiático-judiciais e militares.
Mas o Brasil 2035 precisava ser alcançado, apesar dos percalços e batalhas perdidas.
Novas circunstâncias, novos planos.
O pura e simples golpe entrou no radar.
E pela incompetência, alienação e arrogância, uma sequência de planos Dick Vigarista para sua implementação.

Continuações:
 
Parte II – Planos Dick Vigarista
https://fregablog.blogspot.com/2023/06/selva-terrorista-parte-ii-planos-dick.html

Parte III – E Agora?
https://fregablog.blogspot.com/2023/06/selva-terrorista-parte-iii-e-agora.html