sexta-feira, junho 23, 2023

Selva Terrorista - Parte II – Planos Dick Vigarista

Não há golpe na América Latina sem apoio dos Estados Unidos. E sempre que isso circunstancialmente ocorra, o país insubordinado colhe a fúria e represálias. Dois ainda resistem, Cuba e Venezuela. Ambos ainda penalizados com sanções, ainda que o da Venezuela tenha cumprido os ritos legais para a quebra institucional.

As fichas então estavam colocadas na reeleição de Trump. O alinhamento automático e subalterno e a identidade no desprezo e ataque às instituições democráticas pressupunham a bênção da matriz à quebra institucional da filial.
Recrudesceram os ataques internos, poucos fins de semana passaram sem movimentações de grupos sequestradores dos símbolos nacionais a pregar o fechamento de poderes, como Congresso e STF, ou ataques em geral. Autodenominados patriotas, condenavam retoricamente ao impatriotismo a quem deles discordasse. Período de trevas e com características insofismáveis fascistóides.
Mas Trump não se reelegeu, a tentativa de golpe por lá fracassou, a invasão do Capitólio provocou uma onda de indignação interna, agentes foram presos.
E olha só, o governo militar daqui ficou pasmo com a derrota, apostou ainda numa reversão por lá, foi o último governo ocidental a reconhecer e parabenizar o novo governante eleito.
A antipatia recíproca nos salvou do golpe ortodoxo, da quartelada, dos tanques fumacentos nas ruas, dos centros de prisão e tortura.
Afirma o Financial Times que o governo Biden atuou nem tão discretamente para desestimular o golpe programado para continuidade do governo militar que assumiu em 2019 com uma fachada proporcionada por um fantoche eleito. (https://www.brasil247.com/mundo/governo-biden-atuou-para-impedir-golpe-de-bolsonaro-diz-jornal-britanico-financial-times
)
O PDV-A (Plano Dick Vigarista versão A) fez água.

Antes disso já haviam transmitido as mensagens e alertas de que não seria aceito golpe no Brasil. E nem tanto por outros motivos, mas e principalmente pelo alinhamento automático e servil do então mandatário a Trump, adversário e inimigo político de Biden e que havia tentado um putsch no Capitólio lá na matriz.
Aliás, esses alertas e admoestações recebidos foram um balde de água fria na fervura golpista. Pois bem, esses alertas emitidos a partir do governo Biden, por óbvio, geraram desdobramentos internos. Até nossos estrategistas sabem que, sem o apoio estadunidense, qualquer movimento de golpe, qualquer violação antidemocrática do Estado de Direito não teria a menor sustentabilidade. Cairia de podre em dias, mas não sem antes provocar derramamento de sangue, cuja responsabilidade lhes seria cobrada. As prisões perpétuas na Argentina e Chile, quem diria, serviram para amedrontar nossos valentes marechais. Ufa!!!

Pode-se imaginar o frenesi nos corredores, os sussurros nos ouvidos, as bravatas nos grupos de emails, de zap, de Instagram. Não poderiam, pela ordem recebida (quem desobedecê-las haveria de) e em cumprimento ao axioma de Pazzuelo (um manda, outro obedece), promover a ruptura democrática como haviam planejado.

Nossos estrategistas rapidamente desengavetaram seu plano PDV-B e deram tratos à bola para ajustá-los ao novo cenário. Promover todas as medidas administrativas, ainda que ilegais, para garantir a reeleição. Intensificar o ataque ao processo eleitoral. Torná-lo suspeito, carimbar parcialidade em seus condutores e ao TSE. Um pretexto   alternativo em caso de insucesso eleitoral.
Para tanto, em 17 de julho de 2022 em razão dos informes de que a iminente visita do Secretario de Defesa dos USA traria mensagem de defesa da democracia no Brasil, Ocorreu uma bizarra reunião no Planalto, convidados os chefes das delegações diplomáticas estrangeiras, para acusar as urnas eletrônicas de fraudes e levantar suspeitas sobre a higidez do processo eleitoral brasileiro e isso sem qualquer elemento de prova.  Essa reunião muito provavelmente o levara à cassação de seus direitos políticos por oito anos.
Acontece que, até em razão dessa bizarrice, em visita dia 27 de julho, poucos dias após, o Secretário de Defesa dos Estados Unidos mandou na lata um recado direto (pra não dizer uma ordem) que que nem se atrevessem a promover um golpe. Diplomaticamente afirmou que “nossos países não estão unidos apenas pela geografia. Também estamos próximos por nossos interesses e valores comuns – por nosso profundo respeito aos direitos humanos e à dignidade humana, nosso compromisso com o Estado de Direito e nossa devoção à democracia” (negrito meu). (https://br.usembassy.gov/pt/visita-do-secretario-de-defesa-dos-eua-ao brasil/#:~:text=Bras%C3%ADlia%2C%2027%20de%20julho%20de,uma%20s%C3%A9rie%20de%20reuni%C3%B5es%20bilaterais
).
E ainda complementou afirmando que o sistema eleitoral brasileiro deveria servir de exemplo para todos os demais países democráticos.

Nesse contexto de tentar ao limite a reeleição e até contrariando a própria legislação eleitoral em alguns casos, foram abertas as comportas do tal Auxílio Brasil descaracterizando suas condições e pré-requisitos de renda emergencial, criação de auxílio caminhoneiro, de auxílio taxista. Uma PEC que rapinou os recursos orçamentários destinados ao pagamento de precatórios, uma redução artificial dos preços dos combustíveis sem atacar as reais causas, mas comprometendo os orçamentos estaduais com uma redução impositiva das alíquotas de ICMS. Também promoveu ilegalmente aumento nos valores do Auxílio Brasil e desoneração de impostos federais.
Essas medidas começaram a inverter as pesquisas eleitorais e indicar o crescimento das intenções de voto da situação e redução da oposição, a essa altura bastante concentrada na figura de Lula, a mesma que havia sido alijada da disputa de 2018, ainda que favorita, pela ação militar-midiática-judicial que lhe manteve preso sem provas e antes da sentença transitada em julgado.
Por que se tratava de medidas meramente eleitoreiras? Simples, todas elas vigoravam somente até 31 de dezembro, último dia do mandato. Afinal, se vencida a eleição a porteira estava aberta para o impedimento e assunção do marechal vice-presidente que, dado o evidente caos político e socioeconômico, disporia do campo fértil para a convocação da constituinte e implementação do plano Brasil 2035.
Seria assim o PDV-B bem sucedido. Mas não foi.

A derrota aconteceu em dois turnos e por uma pequena diferença entre os dois candidatos. Era hora de lançar o PDV-C, o da bagunça em ações de desagrado populares e de quebra da ordem. Questionar os resultados e promover convulsão social. Pretextar a pacificação, a retomada da lei e da ordem.

O PDV-C exigia movimentações populares “espontâneas”. Grupos de apoio mais radicais, como o dos transportadores e caminhoneiros bastante vinculados ao agronegócio financiador, paralisaram as estradas. Contingentes foram mobilizados para acampamentos em frente a quartéis com palavras de ordem para intervenção militar.
Áreas militares foram ocupadas por esses grupos e contaram com todo apoio e proteção para lá permanecerem em suas pregações de ruptura institucionais. A ampla cobertura da imprensa e as vozes de formadores de opinião e as próprias autoridades militares do mais alto escalão a classificarem essas manifestações como liberdade democrática de opinião e expressão, não como crimes que eram, mais e mais insuflavam um ambiente pré-convulsão.
O PDV-C parecia caminhar bem.
Como medida acautelatória, o Fantoche presidencial se recolheu enigmaticamente ao palácio presidencial. Sem entrevistas, sem aparições, sem lives, sem cercadinhos. Fazia parte do PDV-C aparentar as manifestações golpistas populares as mais espontâneas possíveis. Qualquer interferência oficial explícita – todos os generais comandantes de QG apoiavam na moita a permanência dos acampamentos – poderia comprometer a imagem do restabelecimento futuro da ordem.

Dia 12 de dezembro, quando da diplomação do presidente eleito, foi desencadeado um teste. O ambiente ideal para o PDV-C seria o confronto entre correntes pró e contra. Por isso a provocação no dia da diplomação, uma reação popular também violenta contra o grupo que vandalizou Brasília, com a conivência omissa da PMDF, poderia inflamar os ânimos e justificar uma ação “pacificadora” antes da posse.
Como acontece com os planos Dick Vigarista, no fim não dão certo.  Essa etapa, PDV-C1, também não deu.
Seria necessário escalar.
A bomba desativada no aeroporto de Brasília na véspera do Natal e que poderia provocar danos e mortes, não foi a única. Dois dias após foi encontrada outra abandonada num terreno baldio do Gama, cidade satélite de Brasília, destinada a explodir a estação de energia elétrica de Brasília. Certamente porque a descoberta e desativação antes da explosão do caminhão tanque despertou sobre a gravidade do atentado frustrado e expôs a conivência dos órgãos de segurança, o que fugia do plano. Se as forças de segurança pretendiam promover uma caçada dos terroristas para fazerem de conta de seu empenho em manter a ordem pública, a conivência os desautorizaria. Identificaram rapidamente os terroristas e ‘encontraram” a outra bomba planejada.
Assim o PDV-C2 também gorou.
Fantástico.

Restava agora o dia da posse, mas as atenções do mundo estavam voltadas para ela. Grande número de autoridades estrangeiras estavam presentes incluindo alguns chefes de Estado. Não era oportuno. Escolheram a semana seguinte para o ato terrorista a ser executado pelo populacho que estava sob proteção do QG do Exército. Como precaução, o Fantoche foi despachado para fora do país antes do final de seu mandado. Imaginavam que, à distância, não poderia ser responsabilizado por fomentar os atos terroristas.

A invasão dos prédios dos Três Poderes, o vandalismo no Alvorada, no Congresso, no Itamaraty, a omissão do BGP, da PMDF, a conivência do GSI, todo esse conjunto foi preparado para que o presidente recém empossado decretasse a GLO.
Mais uma vez o plano dick-vigarista deu chabu.
O Presidente não o fez, mas decretou intervenção na SSP-DF e em seis horas dominou a tentativa golpista terrorista sem qualquer arbitrariedade e sem decretar a GLO, como era expectativa do alto comando golpista. Restava-lhe somente posar como pacificador a essa altura e, no processo de intervenção, buscar uma saída institucional para a manutenção do poder com reações externas mínimas.
Mas PDV-C3 flopou. E agora?
Resta-lhes assumir a derrota. E tirar o seu da reta, comme il faut.

Continua - link abaixo

Parte III – E Agora?
https://fregablog.blogspot.com/2023/06/selva-terrorista-parte-iii-e-agora.html