domingo, março 06, 2022

Às Margens da História

"Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem  como querem; 
não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com
que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado."  
(Karl Marx in O 18 de Brumário de Luís Napoleão)


Vejo, ao abrir o noticiário na manhã deste domingo, possuído pela ânsia masoquista da busca dos relatos das insanidades humanas, um artigo de Otávio Rego Barros https://noticias.uol.com.br/colunas/otavio-rego-barros/2022/03/06/o-plano-de-putin-e-muito-maior.htm , general reformado do Exército Brasileiro e membro destacado da Junta Militar de Governo, ainda que pareça ter sido defenestrado do Planalto quando deixou de ser porta-voz do Comando do Exército para exercer igual função do Presidente da República. E isso ainda como general na ativa.

Enfim.
Discorre o ínclito general sobre os riscos do Ocidente em ilações sobre as intenções expansionistas da Rússia, governada por Putin, e a necessidade dos Estados Unidos, via OTAN, impedir e frustrar suas intenções hegemônicas que se iniciam na Ucrânia.
Matar o pinto dentro do ovo, como se diz na roça.

Bem escrito o artigo, aliás, não se coloca dúvida sobre o preparo intelectual dele, quase uma exceção num ambiente ávido de chavões. Em minha visão, porém, penso que incorre em alguns erros de análise.

Primeiro desenha o cenário dantesco e prédios destruídos e corpos dilacerados decorrente de bombardeios noturnos. Assustador o quadro, habilmente conduz o leitor a deplorar os selvagens  senhores da destruição de cidades e vidas.
Entendo, esse misto de terror e condenação é necessário à logica do artigo, a guerra psicológica trata disso, polarizar a opinião pública no interesse do autor.
Até porque uma meia verdade é pior do que uma mentira inteira, exatamente por isso induz a paixões muito facilmente do que a pura, simples e cristalina verdade. 
Mas ora, por que meia verdade?

Basta ver fotos de prédios demolidos e de mortos para projetar que todo o quadro é esse. Em dez dias de guerra, algo como quatrocentos civis foram vitimados, por fogo inimigo e também amigo.
O leitor tem idéia de quantos civis em Bagdá foram mortos na noite em que mísseis da OTAN pareciam fogos de artifício do reveillon em Copacabana?
Será que foram menos de 400 naquela noite? O que acham?
E na Síria, Líbia etc? Isso pra falar de OTAN. Em ações isoladas, quantos civis foram executados em My Lai? E em Sabra e Shatila? Ou  na Armênia, Afeganistão?

Não, um massacre não justifica outro, mas alguém tem dúvida de que se a Rússia estivesse utilizando as técnicas de ocupação ortodoxas, como bem deve saber o general não por experiência própria, acho que nunca combateu, mas por estudo, a guerra teria acabado no terceiro dia e com custos e danos muito menores ao atacante.
A Rússia está pagando o preço de preservar os civis, general, no limite do possível. Não por boazinha, mas para se preservar.
Não minta!

Discorre ainda que a disparidade de forças é tamanha que o desenlace é absolutamente previsível, "a menos que forças externas sejam tragadas para a disputa no campo de batalha".
Aí está o primeiro erro do general. Nenhum desenlace é mais previsível do que na universalização do conflito. Desenlace a ser medido em horas, não mais em anos como no último conflito generalizado. Na guerra nuclear não haverá vencedores.
De um lado, uma fera tirânica acuada, do outro um velho ultrapassado com veleidades de xerife do mundo. 
Errou, general.

Mas continua.
Discorre sobre a intenção de fechar o acesso da Ucrânia ao Mar Negro. A mim parece o bode na sala para futura negociação e esse bode se chama Odessa.
Mas concordo com o general quanto à ocupação a leste, promovendo a interligação terrestre permanente da Criméia com o território russo. E no caso nem será como um Estado tampão, como imagina o articulista, mas uma anexação permanente.

Erra novamente o general, no entanto, ao supor a criação de Estados a Leste da Ucrânia. Esses Estados já estão criados, decorreram da guerra civil de 2014 e pelo descumprimento do Acordo de Minsk pela Ucrânia.
A autonomia relativa agora virou independência e acredito que de forma irreversível.
Serão incorporados à Rússia por um plebiscito ou se manterão aliados como primeira barreira ao expansionismo da OTAN? A ver.

Aí volta o general ao conceito da Rússia malvada em memória residual condicionada da Guerra Fria. E esquece a história. Tira do esquife Ivan, o Terrível, quase como se criasse Vladimir, o Terrível.

A Europa, como um todo experimentou nos últimos 500 anos, com o declínio do feudalismo e assunção de poderes centrais imperiais, movimentos expansionistas e retracionistas.
As expansões e retrações do Império Russo praticamente se restringiram aos povos eslavos. Napoleão tentou a invasão da Rússia, não foi Alexandre I que invadiu a França.
Já o expansionismo soviético decorrente da IIGG foi sobre uma Europa destruída, populações deportadas, perdas de identidades e de relações familiares decorrentes do conflito. E não se pode dizer ter sido expansão pelas armas, antes pela negociação da partilha em Ialta, onde  própria Rússia era um e os outros três do Ocidente capitalista. 
Não, eu não concordo com a partilha, mas ela foi combinada com o dito Ocidente. Tanto vale a tampa quanto o balaio.
Mas continua Rego Barros.
Viaja na maionese quando infere que o Ocidente engoliu a reincorporação da Criméia como um pedágio para a inclusão da Ucrânia à OTAN.

Finge(?) desconhecer que a Criméia foi cedida à Ucrânia ainda quando participante da URSS, com fins administrativos. O suprimento de água era provido por represa na Ucrânia.
Desde o fim a URSS, em 1994, a Rússia reclama sua devolução. Afinal, suas instalações militares não seriam cedidas mesmo.
O expansionismo da OTAN, comandada pelos Estados Unidos, precipitou a ocupação da Criméía e a resolução da pendência, que se arrastava há décadas.
Nada a ver com entrada da Ucrânia na OTAN, general.
E vai mais longe.

Afirma Rego Barros que a Rússia não se contentará com a conquista da Ucrânia e avançará suas ambições expansionistas com alvo no restante da Europa. Não explica o articulista com base em que faz sua afirmação? Sensação? Medo? Psicografia?
Sei lá, é uma afirmação muito séria, partindo do princípio de que um general deve ter, no mínimo, fundamento para desenho de cenários. Não vale o chute, eu posso chutar, não sou general.

E desencava uma afirmação de Churchill que não lembro, mas pode até ter existido.  "Estou convencido de que não há nada que eles admirem tanto quanto a força e não há nada porque (sic) tenham menos respeito do que a fraqueza, especialmente fraqueza militar."
No mais, um lugar comum a todos os estadistas até o séc. XX.
Essa afirmação é o argumento para que defenda uma oposição armada dos aliados dos Estados Unidos e a escalada, certamente nuclear, do conflito, bem como uma atuação da ONU, com base nos princípios da não intervenção, art 2.4 da Carta, sob pena da ONU transformar-se num mero púlpito de discursos, ora vejam.
Bem que poderia virar um duelo de OK Corral, né, general? O senhor saca rápido e ainda sabe atirar?

Só ha uma saída decente para esse conflito. Negociar.
Entender os argumentos e preocupações de cada uma das partes. Com honestidade, sem espertezas, sem cartas na manga, sem trapaças.
Extinguir a OTAN, ou nela incluir a Rússia, pois não há duas Europas. 
Porque, se é pra ressuscitar Churchill, inspirador da OTAN, trago a afirmação de Lord Hastings Ismay, Secretário de Winston e primeiro Secretário Geral da OTAN:

"A OTAN é criada para manter os americanos (Estados Unidos) dentro, a Rússia fora e a Alemanha abaixo."

Quase 80 anos depois vê-se que o objetivo continua o mesmo. É hora de mudar.





3 Comments:

Blogger Paulo F Teixeira said...

Quem sabe a globalização faz com que a pratica do uso do boi de piranha tenha extrapolado o uso no pantanal para terras distantes.

12:02 PM  
Blogger Unknown said...

A OTAN ficou obsoleta e devia ter sido extinta quando a URSS se dissolveu e acabou o Pacto de Varsóvia. A continuidade de sua existência só se justifica pra alimentar a forte indústria armentista, que enriquece cada vez mais a cada conflito estimulado pelo Ocidente.Faltou bom senso ao general ao conclamar que os participantes viesse escalar mais ainda um conflito que devia por todos tentar se resolver com um acordo justo de Paz. Não há nada mais anticivilizatório que uma Guerra Mundial nem mais desumano, principalmente se ela corre o risco de ser nuclear.A não ser que ele não se preocupa ou não tem descendência e não se importe quando só sobreviverem as baratas.

4:20 AM  
Blogger Unknown said...

A OTAN devia ter sido extinta com a dissolução da URSS e o fim do Pacto de Varsóvia.Acredito que isso só não aconteceu porque sempre será necessário alimentar a indústria armamentista, que tem seus lucros acrescidos a cada conflito existente.Acredito que faltou um pouco de bom senso ao general quando ele sugere que os participantes venham ajudar na Ucrânia.O fim mais sensato sempre será um acordo de Paz entre as partes.Até porque uma Guerra Mundial é sempre uma tragédia humanitária sem tamanho, onde vidas são desnecessariamente ceifadas antes da hora.A não ser que o general não tenha descendentes, seja um lobo solitário, e não se incomode de entregarmos às baratas o nosso planeta azul.

4:33 AM  

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