quinta-feira, outubro 31, 2024

Camaralha

Há um evidente movimento especulativo com as contas nacionais. E não é a economia, estúpido!!!

O dólar explodindo a partir de boatos de instabilidade e os arautos a exigir corte de gastos e difundindo um medo de hiperinflação.
Dizem esses filhos de uma ronca-e-fuça que o Brasil está crescendo além de sua capacidade; que a taxa de desemprego está muito baixa. E tome boataria e especulação.
Como o BC utiliza principalmente o Boletim Focus para assumir a expectativa de inflação e esse boletim resulta da consulta anônima a múltiplos agentes do mercado, melhor dizendo, agentes da especulação, a cada percentil de aumento recursos públicos são drenados exatamente para os bolsos desses especuladores.
Evidentemente que há uma apropriação direta do resultado fiscal da taxa de crescimento da economia.
Simplificando. O aumento da arrecadação derivada do crescimento da economia é desviado para os rendimentos da especulação.
Se fosse só isso já seria um crime de lesa-pátria. Mas não é só. Tem mais.

Essa camaralha (camarilha canalha) encontra no presidente do BC o eco de sua voz. O Sr. Campos Neto não perde oportunidade de demonizar o crescimento e a taxa de juros. Aqui e no exterior, predizendo fantasmas do caos, sugerindo a desorganização e descontrole de contas públicas, receitando o de sempre: corte de despesas.
Não é a economia, estúpido!!!

Lula venceu uma eleição que só ele venceria por menos de dois por cento de diferença. Para a camaralha foi um balde de água fria, pois apostava na privatização do Estado e os ganhos absurdos que teria de uma vez só – analistas estimam que a da Sabesp sozinha rendeu cinco bilhões no mesmo dia aos tais adquirentes.
De fato, o atual governo não lhes interessa e menos ainda o risco de repetir a dose a partir de 2027.

Há três dimensões onde a oposição navega. A política. A econômica. A Comunicação.

O atual governo tem como programas:
 a distribuição de renda, com foco na redução de desigualdades, na habitação popular, no combate à fome;
o aumento das oportunidades de acesso à educação e formação profissional;
o aumento do acesso à saúde pública, seja no atendimento básico, no especializado, nos medicamentos.

A consecução desses objetivos compromete a continuidade da política neoliberal e consequente drenagem de recursos do público para o privado. Por isso precisa ser combatida.
Aí está a raiz dos ataques ao crescimento, à baixa taxa de desemprego, aos programas sociais.
Por isso exigem o corte de gastos, pois bem sabem que há mínimo espaço para que isso aconteça sem inviabilizar programas fundamentais do governo e, com isso, promover o desgaste e perda de confiança do principal segmento de seu eleitorado.
Estão a visar 2026. Por isso o papel da comunicação.
Falseando dados com meias verdades e infligindo medos, corroem a imagem do governo, mascaram informações, massificam que a economia está péssima, um descalabro, um descontrole.
Claro que, para não criar uma dissonância cognitiva, esse discurso precisa se amparar, ainda que minimamente, na realidade. Se aumentar o desemprego, começa a fazer sentido. Se o aumento do dólar criar impactos inflacionários, se as taxas de juros já estratosféricas aumentarem ainda mais e tudo isso junto e misturado for massificado, naturalmente – e as pesquisas mostram isso – o governo não conquista e ainda perde aprovação e apoio popular.
Tudo o que querem. E o governo nesses dois anos ainda não acertou a mão na comunicação, talvez o único ponto realmente fraco e incompetente, seu calcanhar-de-aquiles.

Com isso é possível perceber como o presidente do Banco Central é mero porta-voz político, os agentes da especulação também. E algumas instituições.
A lerdeza na denúncia dos líderes golpistas, Bolsonaro inclusive, também é ato político, gerador de instabilidades e terreno fértil para a derrocada do atual governo.
Repito.
Não é a economia. É a política, estúpido!!!
Há que ter coragem para o risco e garra no combate.

O governo tem uma escolha. Neutralizar a camaralha, ou derreter politicamente. Ambas alternativas têm risco.
O do derretimento é óbvio. Retorno da extrema-direita e o sucateamento nacional, sendo o Brasil definitivamente caracterizado como fazenda, mina e diversão para adultos padrão Jordy para o mundo.
Com os recursos concentrados e dominados pelo capital internacional, que se lixem os brasileiros.
O da neutralização é possível, mas exige coragem.
Trucar. Aumenta o dólar, vende reservas, baixou, compra. Com agilidade. O Brasil tem cacife pra trucar a camaralha. Vai levar porrada na imprensa, em boa parte já controlada acionariamente pelos próprios agentes da especulação. Vai levar porrada no Congresso, comunique-se diretamente com a população não com ar professoral de nunca antes nesse país, mas com acusações e nome aos bois se necessário. Comunique-se!!!
Subiu o dólar, truca de novo, vende até baixar, compra na baixa. Mas pra isso é necessário um presidente do BC que não seja agente infiltrado. Mais dois meses de angústia.
Para isso o presidente tem que botar a cara a tapa, ocupar espaços oficiais e alternativos, explicar dando nome aos bois à população. Pode sofrer um impedimento, talvez possa contar com o apoio nas ruas. Ou não.
Seja como for, é melhor um fim horroroso do que um horror sem fim.