Vai Passar
Página infeliz da nossa história
(Chico Buarque de Holanda)
31 de março. Mês e trimestre que chegam ao fim evocando uma página infeliz de nossa história.
Há sessenta anos um presidente propôs uma pauta, a que chamou de Reformas de Base, que representava um terceiro salto, após o de Getúlio e Juscelino. Pôr ordem na casa com a necessária rearrumação e adequação a novos tempos.
Os temas? Educação (mutirão contra o analfabetismo e reforma universitária), Urbanismo (reforma urbana, com ampliação do acesso à moradia), Agricultura (reforma agrária), Economia (reforma bancária e desenvolvimento industrial). Democracia (universalização do voto).
Ironicamente - o Brasil realmente é para principiantes - boa parte dessa pauta, em maior ou menor extensão, foi adotada e implementada pelos que deram o golpe.
Eu acredito que Jango soubesse que seu destino estava decidido e resolveu subir o tom, deixar claro para a História que um dia o julgaria. https://www.youtube.com/watch?v=3NTncI7DE2o
O discurso presidencial em 13/mar/64 na frente da central do Brasil e ao lado do Palácio Duque de Caxias foi a espoleta que o reacionarismo precisava.
https://www.youtube.com/live/KjZnr9smFw0?si=xap8WcQTNy2JpG_9
O reacionarismo ignorante, o fundamentalismo religioso, a subordinação subserviente dos comandos das Forças Armadas aos interesses geopolíticos estadunidenses e nossa própria elite econômica, supremacista e derivada do acúmulo e concentração promovidos por séculos de escravidão oficializada, carimbaram o ousado presidente com o rótulo de comunista e mergulharam o Brasil numa treva retrógrada de vinte e um anos. Comunista o presidente, acusavam. Ironicamente, era apenas e tão somente o maior pecuarista do Brasil.
Há imbecilidades que são coisas nossas, só nossas.
No dia de hoje, mas em 64, um general comandante em Minas Gerais, elemento soturno e de passado pouco recomendável – foi autor do Plano Cohen, uma fake news utilizada por Getúlio para o golpe de 37 – colocou em ordem de marcha para o Rio de Janeiro seus tanques Sherman fumacentos e sucateados. Cerca de metade deles ficou pifado na estrada. Mas apertou o gatilho para o golpe.
Também no dia de hoje, o general Amaury Kruel, amigo pessoal e, dizem, compadre do presidente, comandante do II Exército com sede em São Paulo, prometia opor-se ao golpe e defender a democracia. Isso pela manhã. À tarde, recebendo US$ 5 milhões arrecadados por lideranças da FIESP, mudou de lado e aderiu ao golpe. https://forumverdade.ufpr.br/blog/2016/04/05/52-anos-do-gope-de-1964-kruel-traiu-jango-por-6-malas-de-dolares/
Um golpe que se autodenominava redentor e moralizador começava por uma traição (haveria intervenção combinada de tropas estadunidenses), corrupção (atentado contra as instituições) e peculato. Não tinha como dar certo mesmo.
Acontece que ninguém com menos de sessenta e cinco anos de idade terá lembranças pessoais do dia desse golpe. Como ninguém com menos de quarenta anos terá lembranças pessoais do período da ditadura.
Remanescem as histórias contadas por quem viveu esses fatos, muitos deles presentes nas histórias familiares. Ou seja, para maioria absoluta da população essa data é simplesmente histórica e, quando muito, de uma má história.
Razão pela qual precisa ser contada, estudada, divulgada, fixada no inconsciente coletivo, transmitida de geração à geração para que nunca mais aconteça.
É papel do governo promover a inclusão nos livros escolares. Mas não como ato público de governo e nesse ponto dou completa razão a Lula em tirar o governo dessa. O movimento deve ser da sociedade. Das universidades e outros centros de pensamento, cultura e formação, como escolas de nível médio nos painéis de debates
A sociedade é livre para manifestar sua repulsa, na mesma forma que a minoria, felizmente em extinção, tem direito a comemorar conforme seu ponto de vista. Que devem ser contestados com fatos e argumentos, não por proibições.
E aos que consideram que essa minoria cometeria crime ao comemorar, vou lembrar somente dois golpes, também violentos, plenos de torturas, prisão e execução de adversários políticos, e que até hoje são louvados e comemorados: Proclamação da República e Revolução de 30, cujo 3 de outubro foi adotado por muitos anos como o dia de eleição.
As democracias no mundo estão sob ataque e questionamento, não somente a nossa. Cresce assim a importância da formação cívica, da fixação dos valores da democracia, ambiente em que nem tudo é admitido, como valer-se das garantias individuais para tentar sua abolição. Por exemplo.
A resposta institucional que demos aos movimentos antidemocráticos e que ainda estamos dando é exemplo para o mundo. Tratar do golpe de 64 nos livros e ambientes escolares e punir exemplarmente os que novamente atentarem contra a democracia são a melhor e talvez única forma de evitar que infaustos episódios se repitam.
E que Chico não precise novamente nos lembrar que Vai Passar.


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