Medo de Fantasmas
Salvo uma revisão curricular, até onde sei a formação do oficial
militar é para o combate. Sua formação básica nas armas combatentes ou de
apoio, todas, objetivam o combate armado contra inimigos do Estado.
Isso é axiomático.
Mas por estas bandas tupiniquins, ainda que fuja à formação
para o objetivo bem determinado, pretende-se que essa habilitação seja expandida
para a ação policial.
Sim, porque a segurança, tanto pública quanto a especializada, incluindo segurança, exige uma formação outra, diferente. Na União, a Academia da Polícia
federal proporciona essa formação. Ou deveria proporcionar.
E aí vamos à controvérsia do GSI.
“O Gabinete de Segurança
Institucional, órgão essencial da Presidência da República, tem como área de
competência a assistência direta e imediata ao Presidente da República no
desempenho de suas atribuições inclusive fazendo a segurança do palácio presidencial e das residências do Presidente da República e do Vice-Presidente da República, assegurando o exercício do poder de polícia.” (fonte: Órgãos da
Presidência em www.gov.br)
Ou seja, oficialmente compete ao GSI a segurança pessoal e
patrimonial dos palácios e residências do presidente e vice-presidente, além de
assistência direta e imediata a essas duas autoridades.
Isso é o que está escrito no site oficial do governo, com a abertura pra
qualquer coisa no guarda-chuva de assistir direta e imediatamente ao Presidente
no desempenho de suas funções. O que lhe permitiria, lato sensu, a palpitar em qualquer
coisa, asponeria mais ampla é impossível.
Mas a questão que ponho: em que ou no que isso é compatível com a formação
de um combatente de terra, mar e ar contra inimigos externos? A vigilância de
prédios é curricular na Aman? No EMFA? Na ESG, talvez?
Creio que não.
E isso se corrobora em razão do GSI não ser um órgão com função militar, seu
chefe não comandar tropas e nem tropilhas, e nem necessitar de galonas ou
estrelas.
Trata-se, portanto, de um hábito, de uma má prática política reinaugurada pelo
golpista Temer, o provisório fantoche dos marechais em seu projeto de ocupação
política do poder.
Ou seja, não é que seja desnecessário ser um militar a comandar e militarizar o
GSI. É inconveniente, se considerado nosso histórico de quase século e meio
republicano.
Fosse verdade o que consta no site oficial gov.br, essa deveria ser uma
atribuição dada à PF. Simples assim.
Mas não.
A quantidade de penduricalhos no GSI, razão de um efetivo perto ao milhar de
servidores – é isso mesmo, milhar de servidores, mais do que alguns ministérios
- o transforma num pólo de atração de exercício de poder paralelo.
Um buraco negro, com atuações paralelas a de vários outros ministérios, a
pretexto de coordená-las. Coordená-las, mesmo sem ser atribuição sua conforme o
site gov.br?
Afinal, a Abin (ações de inteligência) reportam-se à Casa
Civil (deveria ser diretamente ao presidente, mas vá lá). Energia Nuclear ao
MME, cujos especialistas deveriam interagir com o MD/Forças nos projetos com
fins militares. Cenários globais deveriam ser coordenados pelo Itamaraty, os
locais pela própria Abin, os políticos pela Casa Civil.
A formação militar é hierárquica, a meu comando é palavra de ordem.
A par das
benesses pessoais que essa infiltração provoca e promove de ações entre amigos,
acaba virando um buraco negro gerencial, do tipo que atrai a tudo para seu domínio.
E é até capaz de tramar golpes, pois o poder secundário não é seu objetivo.
Nunca foi. O capitão não quer comandar uma companhia pelo resto da vida, sonha
com exércitos. No caso brasileiro, com o Estado.
Sem contar que em todos os episódios que ameaçaram a soberania, a ordem
democrática, as instalações a que deveriam guardar, falharam inapelavelmente.
Como se sabe do passado e como se viu no presente.
Essa situação precisa ser enfrentada, a desmilitarização do GSI
se impõe. Militares na ativa devem ser evitados, os da reserva, se
aproveitados, o sejam como cidadãos civis e com capacitação civil compatível.
Alimentar distorções por medo de enfrentá-las nunca deu bom resultado.

1 Comments:
A história está cheia de casos em que militar com muita força, ao lado da liderança civil, acaba extravasando, substituindo, assumindo as vezes do comandante civil. E quando chega nessa posição, gosta, é natural, o exercício do poder casa com o ego, acham que podem e lá vão. Essa proximidade nem sempre dá certo, na maior parte das vezes dá muito errado. A oportunidade para resolver esse caso surgiu, por sorte bem cedo, há todas as razões para acabar com isso. Colocá-los longe, cortar suas asas, mudar formação, destacá-los para cuidar das fronteiras, mostrar se pelo menos para isso servem, o que ainda não está claro. Elas estão cheias de furos. Não deviam estar.
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