Primeiro ou Segundo Turno?
To be or not to be. This is the question (WS)
Estamos a seis meses das eleições gerais e com uma ameaça de golpe cada vez mais concreta.A grande realidade é que em oito meros anos, o projeto democrático, idealizado e institucionalizado pela Constituição de 88, foi erodido sem que houvesse se cumprido o tempo para consolidar.
Setores, especialmente os financeiros, descomprometidos com o desenvolvimento nacional soberano, aliados a segmentos supremacistas das Forças Armadas, mal formados culturalmente e ainda contaminados com um positivismo político anacrônico, compõem o cerne reacionário antidemocrático.
Desprezam a democracia como um valor civilizatório, desprezam o conceito de responsabilidade social do estado - confundem por ignorância ou má-fé com comunismo - adotam o ideário neoliberal e os fundamentos místico-ufanistas de trilogias, sendo um dos termos Deus e os outros variando ente Pátria, Família, Propriedade, Liberdade, Povo, Raça ou qualquer outro conceito que possa mascarar seu reacionarismo, que preferem denominar conservadorismo.
Pois bem, essa gente existe, não é ficção e não somente aqui, mas são identificados em todos os grupos ditos de extrema-direita atuais no mundo. Simplificadamente denominados de fascistóides, quando somente desprezam as instituições democráticas, ou de neonazistas, quando violentos, excludentes e perseguidores.
Desses grupos, atualmente muito bem representados no atual governo, é que partem as ameaças mais incisivas às eleições de outubro.
Sabem também eles que não há espaço para aventuras armadas com quebra explícita das instituições. Buscam então as brechas que permitam o golpe e que ainda assim preservem a democracia em seus aspectos formais. Sabem que a quebra democrática, como fizeram em 64 e em vezes anteriores, não é mais possível e o boicote mundial em todos organismos multilaterais nos excluiria da comunidade das nações de uma forma tão radical que nos demoliria.
Urdem um plano bem montado e articulado para assumir o poder na marra sem que pareça ser na marra. Como? Desgastando os institutos da democracia.
A tendência de derrota eleitoral começa a tomar ares irreversíveis. Mês a mês, pesquisa a pesquisa, sinalizam concentrações em duas frentes: a democrática e a antidemocrática.
Por evidente, a antidemocrática tem menos adeptos, ainda que mais radicais e dispostos a impor suas convicções. Como de hábito.
Resta-lhes atacar os processos eleitorais e, in extremis, eliminar adversários.
Um atentado não é descartável a essa altura, não uma facada suspeita de armação, mas atentado pra valer. Armados estão e com armas de guerra. Além do alinhamento com as forças de segurança.
Creio que esse desatino, que explodiria o Brasil e o mergulharia numa destruição autofágica, nem os mais radicais se animariam a praticar. Salvo os loucos varridos. É mais provável e fácil gerar desconfianças sobre o processo.
O ataque às urnas eletrônicas insere-se exatamente nesse contexto.
E aí faço um parênteses. Quem de fato está governando o Brasil?
O Orçamento, claramente, foi terceirizado a um grupo de parlamentares pragmáticos em causa própria e que, pra ficar na moda, prefiro chamar o movimento de neocoronelismo em vez de Centrão. Até porque não são ideologicamente classificáveis, nem sequer de Centro, este uma corrente de pensamento político diferente do simples oportunismo.
Já a pauta política, essa foi assumida desde a concepção da tomada do poder e suas primeiras ações efetivas, ainda em 2014, foram dirigidas pelos mais altos escalões das Forças Armadas da União, ativos e inativos.
O presidente, apenas um político até então medíocre e sem qualquer liderança - candidatou-se à Presidência da Câmara em 2017 e obteve quatro votos, incluindo o seu próprio, no total de 513 eleitores. Inacreditável sua vitória para a presidência da República menos de dois anos depois. Foi um plano bem montado e articulado pelos que denomino marechais e que assumiram de fato o poder com a eleição de 2018.
Não esqueçamos. Todo o desastre que colhemos nos últimos quatro anos é de sua total e exclusiva responsabilidade, ainda que tentem escorregar a culpa para seu laranja e testa de ferro, Jair Bolsonaro, um limitado agente provocador, e só.
Fecho o parênteses.
Fecho o parênteses.
O processo então envolve duas ações distintas e articuladas. A desmoralização das instâncias judiciais e a desconfiança sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Os ataques ao Judiciário começaram no primeiro dia do mandato dos marechais. Tanto é que poucos meses após sua posse foi aberto inquérito no STF, com base em disposição legal no regimento Interno, para apurar a enxurrada de ataques pessoais e de notícias falsas originadas no Alvorada.
Foi a primeira reação, refreou ânimos, mas os ataques continuaram na base do morde-assopra.
Foi a primeira reação, refreou ânimos, mas os ataques continuaram na base do morde-assopra.
Nessa reta final para as eleições, retomam sua virulência, agora conjugadas com os ataques às urnas eletrônicas, cujo alegado processo viciado estaria, com o beneplácito da Justiça, beneficiando o primeiro colocado nas pesquisas.
Por erro a raposa foi chamada pra participar do grupo de fiscais do galinheiro. Tudo o que os marechais queriam para institucionalizar a falsa dúvida que têm. Afinal, um processo viciado é exatamente o argumento para melar as eleições e reprimir as reações que acontecerão, tudo com o amparo de uma ação de GLO.
E garantirem-se no poder, até alegando que estão cumprindo a lei. Uma meia verdade não é uma mentira inteira.
E aí, então, apresento a verdadeira dúvida, razão desse longo texto.
Qual o risco menor de golpe: no primeiro ou no segundo turno?
As pesquisas sinalizam a possibilidade de vitória no primeiro turno.
A mais recente pesquisa Genial/Quaest, mai/2022) aponta que Lula registra 51,1% das intenções de voto e Bolsonaro 32,2%. Se todos os indecisos (3%) votassem em Bolsonaro, Lula contaria com 49,5% dos votos válidos e a eleição iria a segundo turno.
Bem se percebe que uma vitória no primeiro turno com muitos candidatos, ainda que com uma distância grande entre o primeiro e segundo colocados, provavelmente o percentual excedente a 50% dos votos válidos nunca será muito grande. Talvez alguma coisa de até 2%.
Percentuais pequenos, ou do quase, são mais facilmente radicalizados pelo perdedor, uma pequena diferença na contagem dá um cheiro de quase empate, ou de pequeno erro.
Percentuais pequenos, ou do quase, são mais facilmente radicalizados pelo perdedor, uma pequena diferença na contagem dá um cheiro de quase empate, ou de pequeno erro.
Em compensação, por se tratar de uma eleição geral e que envolve também os parlamentos e governos da União e dos Estados Federados, alegar fraude somente nos votos para o Executivo Federal perderia força de argumento. Ou bem as urnas funcionam bem como um todo, ou mal como um todo.
Isso pode retirar o argumento golpista e o reconhecimento da vitória de fato impediria, ou reduziria, tentativas no tapetão.
Por outro lado, as diferenças num segundo turno se tornam mais evidentes, mais incontestáveis, podem, e geralmente sim, significar uma ratificação dos resultados do primeiro turno.
A mesma pesquisa aponta que Lula alcançaria entre 60% e 61,4% dos votos válidos, uma diferença, portanto, entre 20% e 22,8% dos votos válidos.
O tamanho da diferença torna incontestável o resultado e elimina qualquer possibilidade de fraude, pelo gigantismo. Além de derrotar pela segunda vez o segundo colocado.
Evidentemente isso esvazia completamente o discurso golpista.
Evidentemente isso esvazia completamente o discurso golpista.
A realidade é que haverá dois ou três meses entre a eleição e a posse. A diplomação, que é o reconhecimento do resultado pela Justiça Eleitoral, se faz após esgotados os prazos para eventuais questionamentos. Diplomado o eleito, cabe ainda recurso contra a diplomação, mas a posse e exercício do mandato ficam assegurados até que a Justiça Eleitoral, eventualmente, dê provimento ao recurso.
A grande dúvida é que se o maior ou menor prazo entre a eleição, diplomação e posse favorece ou inibe iniciativas golpistas.
Nesse particular eu considero que o menor prazo inibe tais iniciativas, o que recomendaria uma eleição no segundo turno.
Entretanto, uma campanha de segundo turno, com um mês a mais de exposição e em ambiente já mais radicalizado, favorece que algum maluco, ou mesmo alguma corrente interessada no golpe, promova um atentado.
Essa hipótese, perigosa de fato, recomendaria liquidar a fatura o mais rapidamente possível, já no primeiro turno, e enfrentando juridicamente o tapetão, se for o caso.
Nesse particular eu considero que o menor prazo inibe tais iniciativas, o que recomendaria uma eleição no segundo turno.
Entretanto, uma campanha de segundo turno, com um mês a mais de exposição e em ambiente já mais radicalizado, favorece que algum maluco, ou mesmo alguma corrente interessada no golpe, promova um atentado.
Essa hipótese, perigosa de fato, recomendaria liquidar a fatura o mais rapidamente possível, já no primeiro turno, e enfrentando juridicamente o tapetão, se for o caso.
Pois é. Nossa sinuca de bico parece que não tem fim. Tempos trevosos.



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