sexta-feira, março 27, 2015

Saudade do Jeitinho

Ontem estava assistindo ao segundo tempo do jogo contra a França. Jogo amarrado, mastigado, prussiano.  Um jogo de dois iguais, um combate de quadrados. Aí fiquei pensando, onde estaria a alegria lúdica doutros tempos? A irreverência, a leveza, a malandragem? Todos, ou quase, jogam na Europa, com sua rigidez semi-cadavérica, suas intolerâncias, banhos de sangue, gélidas estepes e florestas.Na Pátria de chuteiras também  mataram o jeitinho.
Execrado, o tal jeitinho tão brasileiro era nossa salvação individual. A forma de contornar a tirania do Poder, de contornar as dificuldades sem rigidez, de compor com as diferenças, de levar a vida sem a seriedade que a vida não merece. De desconfiar do publicado, de colocar-se no lugar do outro ainda que infringindo regras. Porque o jeitinho estava associado umbilicalmente ao quebrar o galho, à solidariedade.

Mesmo durante a revolução pessoas acima de qualquer suspeita acoitaram contra-parentes ou amigos procurados pela repressão até que fugissem, ainda que estivessem em lados opostos. Os avisos prévios não eram considerados traição, apenas um quebra-galho.
Conheço o caso de um oficial de dia ser portador da mensagem tranquilizadora para a família de Paulo Francis, na ocasião preso e incomunicável, de que ele estava bem e não se preocupassem. Anônima e solidária. Ou do aviso que recebeu um sociólogo promissor de que seria preso, portanto, saísse do país antes. Ou do músico, a quem os porões vazaram o recado de que seria saudável passar um tempo fora.
O brasileiro era capaz de quebrar as regras que o Brasil oficial impunha. Com solidariedade e leveza.
Era o Brasil do jeitinho e quebra-galho.
Mas o Brasil não é mais assim, mudou. Adquiriu as práticas e técnicas da rigidez e intolerância.

Começou a ocorrer durante o golpe de 64. Lá a semente foi plantada por muito poucos, mas influentes jardineiros. E a semente gerou um capão. Esse capão, uma floresta, adubada pela Constituição de 88. O BBB é fichinha perto da pantomima que se tornou a gestão nacional.
Em nenhum momento as instituições foram tão opressoras e tão artificiais em sua pseudo-moralidade. Tudo mascarado por uma democracia que de em realidade não existe.
O Estado cresceu em sua tutela do cidadão, fatos dos mais comezinhos hoje são regulamentados. É a república do não pode, do regulamento, do é a norma, do sistema não permite.
Democracia não é a possibilidade de manifestação mais ou menos idiota, mais ou menos tangeada, mais ou menos um fim em si mesma. É (ou seria) muito mais do que isso.
O nosso jeitinho virou fingimento. Finge-se viver numa democracia e, pelo fingimento, oscilamos entre o presidencialismo de coalizão e o parlamentarismo de ocasião. E estufamos o peito para chamar esse aborto de democracia.

Ontem o presidente do Congresso se declarou disposto a barrar qualquer iniciativa do Planalto em represália aos vetos sobre uma lei oportunista de fusão e criação de partidos políticos. Os vetos contrariaram os interesses partidários dele. Mas quem é essa pessoa?
Eleito senador pelo terceiro mandato (24 anos no senado), envolvido em um escândalo que o levou a renunciar à presidência da Casa, o que não pejou que o reconduzissem posteriormente à mesma posição, detém poderes no parlamentarismo de ocasião que lhe permitem  impor seu interesse e vontade aos 200 milhões de brasileiros. Sabem quantos votos obteve? 679.982. Votação de vereador.
Com 0,48% dos votos dos eleitores brasileiros, adquiriu o poder de comandar o Poder que representaria a totalidade dos eleitores e a República. É a democracia representativa da representativa. A do jogo dos interesses pessoais. Uma democracia conduzida por heróis de fancaria, sem nenhuma vergonha na cara e sem vergonha de não ter vergonha.

E onde fico nessa história? Com a mesma cara de bobo de todo mundo, mas com uma saudade enorme, imensa, do falecido jeitinho.
Saudade do Brasil que não existe mais, do país que abandonou a alegria para institucionalizar a rigidez copiada. Do país que não engolia elefantes para engasgar-se com mosquitos, por ser politicamente correto.
Saudade de um Brasil antigo, que mudou seu caráter para pior. Que trocou a malandragem pela bandidagem.

http://folhapolitica.jusbrasil.com.br/noticias/159489659/renan-calheiros-exige-cargos-no-segundo-escalao-e-ameaca-com-independencia-do-pmdb-no-senado

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