Vox Populi
Episódio 1
Jean Pierre, com um prato com sopa de nabos, foi impedido de entrar na cela escura da Prisão do Templo, naquele começo de junho em que o calor e o abafamento tornavam o ambiente insuportável.
Os demais carcereiros riam e o empurravam de um lado para o outro. Uma voz rouca ainda gritou que filho de sapo, sapo é.
Jean Pierre ainda tentou chamá-los à razão. Era só uma criança, quase moribunda, de nada tinha culpa. Acometida pela febre e envolta em farrapos apesar da atmosfera nauseabunda, o deixassem levar-lhe um alento, ainda que fosse uma sopa aguada de nabos.
Calaram-se os demais carcereiros com a raiva em suas faces. Um grito único, como se combinado fosse, explodiu em todas as gargantas. Com varas, surraram Jean Pierre, fizeram-no lamber a pedra imunda com os restos da sopa derramada. Lambeu o piso e o sangue que escorria de si.
No dia seguinte, Luis Carlos, herdeiro de Luis XVI, exalava o último suspiro aos 10 anos de idade nos braços de sua tia.
................
Episódio 32
Ya'acov, amontoado na praça, fez silêncio assim que o centurião levantou a mão em direção ao povo.
- A quem quereis que vos solte, a Barrabás ou a Jesus?
Antes de qualquer um, Ya'acov gritou: Jesus. Numa fração de segundo após, manifestou-se a turba: Barrabás, solte Barrabás.
Jesus, gritou novamente Ya'acov. É por inveja que o acusam. Barrabás, Barrabás, repetia a multidão.
A seu lado, um sacerdote apontou-lhe o dedo e acusou. Peguem, é um traidor de nossa lei, foi comprado pelos asseclas do agitador a quem chamam de Rabi.
Voltou-se a massa contra Ya'acob, bateram-lhe e cuspiram nele.
Ao entardecer, restava nas pedras somente o corpo inerte de Ya'acob em meio de uma poça de sangue. Foi o primeiro sangue que verteu naquele dia, antes mesmo da sessão de açoitamento.
...............
Episódio 95
A carta. Quem teria sido o traidor que a escreveu?
A França ainda padecia das feridas da derrota contra a Prússia. Alguém espionava para os alemães. Um oficial. Mas qual?
Sim, havia um judeu, um oficial judeu. Claro, ele era um espião.
Convulsionou-se Paris. A turba em gritos gritava: -À guilhotina com o traidor. Matem. Esmaguem a barata traidora.
Julgado e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo (a mesma de Papillon), apodreceu nas masmorras tropicais por longos anos. Embora 3 anos após sua condenação já houvesse provas suficientes de sua inocência e a identificação do verdadeiro culpado, novo julgamento confirmou-lhe a pena vitalícia.
J'accuse, escreveu Zola, denunciando a injustiça. Dividiu-se a turba em barricadas. Uma gritava, viva Zola. Ao que a outra respondia, em meio a vaias: Viva o exército, morte aos judeus.
Um novo julgamento, 12 anos após, restabeleceu a verdade da inocência de Dreyfus.
.............
Episódio 134
Esses facínoras mataram seus primos para roubar-lhe 90 contos de réis, acusava o delegado. Assassinos, berrava o populacho. Matem, merecem morrer.
Prendam sua mãe, suas mulheres. Façam contar onde esconderam o dinheiro roubado.
Não foram poucos os suplícios às torturas medievais do tenente do exército responsável pela acusação. De abusos sexuais a surras homéricas. Ainda assim, negavam o crime que, aliás, decorria de haverem denunciado que os primos haviam fugido da cidade após dar um golpe financeiro em Araguari.
A cidade amanheceu redimida, os irmãos haviam sido condenados a 25 anos de cadeia.
Onde passavam, a população os agredia.
- Assassinos, ladrões. Porcos imundos, merecem morrer. Da mesma forma era tratado seu advogado defensor, voz única a protestar suas inocências.
Em liberdade condicional após cumprimento de 9 anos encarcerados, tentaram restabelecer a verdade. Quer dizer, um tentou, o outro havia morrido em um asilo em conseqüência das seqüelas das torturas, do desgosto da injustiça, da insalubridade da prisão.
Em suas diligências, o primo desaparecido reaparece.
15 anos após o julgamento primeiro, Sebastião Naves, o remanescente, comprova a inocência sua e de seu irmão, que já não estava aqui para encarar nos olhos aqueles que os condenaram.
Por tudo isso penso. Vox populi, vox Dei. Contrariar a voz manipulada do povaréu com sede de sangue é um ato de coragem ou de insanidade? Só o tempo pode restabelecer a veracidade fatos.
Vozes singulares, não.
Jean Pierre, com um prato com sopa de nabos, foi impedido de entrar na cela escura da Prisão do Templo, naquele começo de junho em que o calor e o abafamento tornavam o ambiente insuportável.
Os demais carcereiros riam e o empurravam de um lado para o outro. Uma voz rouca ainda gritou que filho de sapo, sapo é.
Jean Pierre ainda tentou chamá-los à razão. Era só uma criança, quase moribunda, de nada tinha culpa. Acometida pela febre e envolta em farrapos apesar da atmosfera nauseabunda, o deixassem levar-lhe um alento, ainda que fosse uma sopa aguada de nabos.
Calaram-se os demais carcereiros com a raiva em suas faces. Um grito único, como se combinado fosse, explodiu em todas as gargantas. Com varas, surraram Jean Pierre, fizeram-no lamber a pedra imunda com os restos da sopa derramada. Lambeu o piso e o sangue que escorria de si.
No dia seguinte, Luis Carlos, herdeiro de Luis XVI, exalava o último suspiro aos 10 anos de idade nos braços de sua tia.
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Episódio 32
Ya'acov, amontoado na praça, fez silêncio assim que o centurião levantou a mão em direção ao povo.
- A quem quereis que vos solte, a Barrabás ou a Jesus?
Antes de qualquer um, Ya'acov gritou: Jesus. Numa fração de segundo após, manifestou-se a turba: Barrabás, solte Barrabás.
Jesus, gritou novamente Ya'acov. É por inveja que o acusam. Barrabás, Barrabás, repetia a multidão.
A seu lado, um sacerdote apontou-lhe o dedo e acusou. Peguem, é um traidor de nossa lei, foi comprado pelos asseclas do agitador a quem chamam de Rabi.
Voltou-se a massa contra Ya'acob, bateram-lhe e cuspiram nele.
Ao entardecer, restava nas pedras somente o corpo inerte de Ya'acob em meio de uma poça de sangue. Foi o primeiro sangue que verteu naquele dia, antes mesmo da sessão de açoitamento.
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Episódio 95
A carta. Quem teria sido o traidor que a escreveu?
A França ainda padecia das feridas da derrota contra a Prússia. Alguém espionava para os alemães. Um oficial. Mas qual?
Sim, havia um judeu, um oficial judeu. Claro, ele era um espião.
Convulsionou-se Paris. A turba em gritos gritava: -À guilhotina com o traidor. Matem. Esmaguem a barata traidora.
Julgado e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo (a mesma de Papillon), apodreceu nas masmorras tropicais por longos anos. Embora 3 anos após sua condenação já houvesse provas suficientes de sua inocência e a identificação do verdadeiro culpado, novo julgamento confirmou-lhe a pena vitalícia.
J'accuse, escreveu Zola, denunciando a injustiça. Dividiu-se a turba em barricadas. Uma gritava, viva Zola. Ao que a outra respondia, em meio a vaias: Viva o exército, morte aos judeus.
Um novo julgamento, 12 anos após, restabeleceu a verdade da inocência de Dreyfus.
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Episódio 134
Esses facínoras mataram seus primos para roubar-lhe 90 contos de réis, acusava o delegado. Assassinos, berrava o populacho. Matem, merecem morrer.
Prendam sua mãe, suas mulheres. Façam contar onde esconderam o dinheiro roubado.
Não foram poucos os suplícios às torturas medievais do tenente do exército responsável pela acusação. De abusos sexuais a surras homéricas. Ainda assim, negavam o crime que, aliás, decorria de haverem denunciado que os primos haviam fugido da cidade após dar um golpe financeiro em Araguari.
A cidade amanheceu redimida, os irmãos haviam sido condenados a 25 anos de cadeia.
Onde passavam, a população os agredia.
- Assassinos, ladrões. Porcos imundos, merecem morrer. Da mesma forma era tratado seu advogado defensor, voz única a protestar suas inocências.
Em liberdade condicional após cumprimento de 9 anos encarcerados, tentaram restabelecer a verdade. Quer dizer, um tentou, o outro havia morrido em um asilo em conseqüência das seqüelas das torturas, do desgosto da injustiça, da insalubridade da prisão.
Em suas diligências, o primo desaparecido reaparece.
15 anos após o julgamento primeiro, Sebastião Naves, o remanescente, comprova a inocência sua e de seu irmão, que já não estava aqui para encarar nos olhos aqueles que os condenaram.
Por tudo isso penso. Vox populi, vox Dei. Contrariar a voz manipulada do povaréu com sede de sangue é um ato de coragem ou de insanidade? Só o tempo pode restabelecer a veracidade fatos.
Vozes singulares, não.


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