quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Iconoclastas

Sei, ano eleitoral é ano de polarizações, defesas e ataques tantas vezes sem fundamento. É um mau hábito, mas é um hábito. Porém este ano está diferente, um terrorismo crescente fundamentado em premonições ou mentiras. Não importa o lado, o partido, a corrente, a tendência é a mesma.
Nossa sociedade sempre foi iconoclasta. É uma relação de amor e ódio, pois no mesmo momento que procura destruir ícones, anseia por um salvador e aposta suas esperanças em novo ícone forjado. Faz a dança do bezerro de ouro.
O que vemos nos últimos dias:

Campanha contra a Friboi, a maior indústria de processamento de proteína animal do mundo, um gigante multinacional brasileiro. É uma história de sucesso que surfou na onda da construção de Brasília e transformou-se de um açougue em Anápolis em mais de 300 unidades de produção em vários países. Ah, mas não, um sucesso assim só pode ter picaretagem por trás. É do Lula, do filho dele e sei mais de quem. Cresceu assim porque obteve benesses governamentais.
Tudo isso é jogado ao vento para que se acredite que é impossível a brasileiros caipiras destacarem-se dessa forma. Era muito melhor reclamar dos calotes da Swift-Armour, do domínio interno de multinacionais estrangeiras. Pouco importa se é uma companhia de capital aberto com ações listadas em Bolsa e com todos acionistas identificados. Pouco importa se o BNDES concedeu-lhes crédito nas mesmas condições que pratica inclusive para empresas estrangeiras controladas por holdings estrangeiras. na irracionalidade, nada importa. É do Lula e pronto. Partidariza-se o boi e o pasto.

Lewandowski assumirá a presidência do STF e atropelará ritos processuais para soltar mensaleiros. É outra impossibilidade que se planta numa partidarização da justiça.
As suspeitas levantadas por juristas de primeira linha quanto ao atropelo promovido pelo atual presidente, tanto em ritos como em desconhecimento de contra-provas, tudo isso pouco importa. Foca-se num possível atropelo futuro, em cristalização do medo do amanhã.
Lewandowski é um jurista conceituado. Academicamente com mais títulos do que a absoluta maioria de seus pares. Foi advogado atuante, coisa que outros não foram. Foi guindado ao Tribunal de Alçada de SP pelo quinto constitucional, ou seja, indicação de seus pares. A questão se resume a ter se oposto à sede de sangue que norteou o espetáculo circense do julgamento e ter sido indicado para o STF por Lula. Isso é motivo suficiente para desconsiderar todo seu passado de jurista e lançar a suspeita geradora de medos à sociedade. Mitos devem ser destruídos. Ícones, desmoralizados.

E o Porto de Mariel, então? Dilma construiu o porto em Cuba enquanto nossa safra enfrenta filas nos terminais para descarga. Dá pra se imaginar mentira maior do que essa?
Enquanto patinamos aqui com o marco regulatório dos portos, o que revoga restrições de operação de portos privados e que submeteu o governo a ter que negociar sua aprovação no Congresso pela oposição suspeita do líder do PMDB Eduardo Cunha, não havia tanta comoção. Mas no momento em que o BNDES concedeu créditos a empresas nacionais - algumas gigantes do setor inclusive - para que produzissem os equipamentos, os exportassem com financiamento garantido e construíssem o referido porto. Ah! é picaretagem, é coisa do Lula, da Dilma, são sócios da Odebrecht, são comunistas. Acho que é o único caso em que pessoas são acusados simultaneamente capitalistas e comunistas.
No pano de fundo, é a ousadia de brasileiros, pés-de-chinelo, resolverem ocupar nichos industriais e comerciais em competição com os ídolos do primeiro mundo. Desconhecem seu lugar, como se dizia há meio século, ficassem na cozinha e nas áreas de serviço.
Não, é impossível para brasileiros. Tem que ser picaretagem.

A Petrobrás foi falida pela má gestão politizada, o pré-sal é uma farsa, é um devaneio brasileiro construir plataformas no Brasil.
Pois bem, a Petrobrás encerrou seu balanço com o maior lucro de sua história e o pré-sal atingiu a marca superior a 400 mil barris diários. Que atrevimento. E a indústria naval brasileira toma corpo, após ter sido liqudada pelo descrédito em nós mesmos.
Não custa lembrar que há 60 anos as consultorias internacionais - certamente compradas - eliminavam a possibilidade de haver petróleo no Brasil. E tanta gente acreditou, a ponto de levarem um presidente ao suicídio por haver enfrentado essa mentira.

Quanto tempo ainda levaremos para nos livrar do rodriguiano complexo de vira-latas? E será que conseguiremos nos livrar dele ou teremos que enfrentar o esfacelamento nacional para que, minimamente, adquiramos alguma dignidade de cidadania?
Será que o Brasil terá que ser demolido como um ícone que tanto nos apraz destruir?
Já não sei.

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