segunda-feira, julho 25, 2011

Amys e Beira-Mares

O desafio das drogas instiga a todos e ninguém ainda conseguiu uma análise holística desse fenômeno. O fato é não há como desconhecer essa epidemia e nem família ou grupo social que não seja atingido por ela.


Simplificando, percebe-se 3 correntes de opinião sobre seus efeitos. A convivência, mais fácil quanto ao uso de drogas que não degradem o comportamento social, como o cigarro, e mais difícil, numa escala que vai do álcool às drogas mais pesadas. A repressão, mais visível quanto às drogas mais pesadas, num gradiente decrescente até às ditas mais leves, e o tratamento, que ainda divide opiniões sobre sua efetividade, porque depende muito da vontade do infectado.


Como pano de fundo, o crescente desconforto dos entes sociais, em descompasso com a sociedade. A universalização de valores e rótulos impostos como padrão, em quase unanimidade, classificando pessoas pelo dinheiro ou exposição pública que têm, num comportamento iconocêntrico, parindo ídolos com pés de barro.


O tratamento está a exigir da sociedade a destinação de recursos cada vez mais insuficientes e, até o momento, com resultados pífios. O exato mecanismo de dependência química não é totalmente conhecido, porque ultrapassa o físico e envereda pelos meandros da mente individual e coletiva. É absolutamente lamentável ver a dor de uma mãe acorrentando seu filho para que não saia de casa enquanto ela vai à luta para sustentar seu próprio filho. É a imagem do desespero em último estágio, por não saber como tratar a situação.

Já a repressão esbarra nos conceitos do politicamente correto e, como de fato nunca se tem certeza quem será atingido, se um filho ou irmão, o próprio consenso social se forma por esse medo.


Em países como a Indonésia e China, o tráfico de drogas pesadas é reprimido com pena de morte. Aparentemente, têm impedido a propagação da epidemia. É uma solução radical, que amputa a sociedade para preservá-la. O tráfico é visto como gangrena social hoje, talvez por terem sentido na carne seu potencial de dominação sobre vontades, como na Guerra do Ópio, por exemplo.


No Brasil, até agora optamos por transitar nas 3 correntes.

Convivemos com naturalidade com o glamour de festas de embalo de famosos, quantas vezes não polvilhadas com cocaína? Convivemos com meninos que cheiravam cola e agora fumam crack e agora oxi. Com maconha nas universidades. É quase politicamente aceitável entre os tais ídolos referenciais de pés-de-barro. Convivemos naturalmente com o traficante da esquina, enquanto ele não nos atinja diretamente e reclamamos quando ele transforma nossa rua em sua cidadela. A sociedade até chora alguns de seus mortos nessa guerra, mas são lágrimas efêmeras. Anestesiada, quase as aceita com o sentimento de inevitabilidade do aleatório. Não passa da cobertura de um dia com imagens de dor dos atingidos, não raras vezes aliviando sua dor com patéticos apelos de Justiça!, como se isso fosse possível para quem morreu, ressucitá-lo ao menos.

Reprimimos limitadamente, de acordo com os interesses implícitos ou explícitos, num arcabouço legal frouxo e que impede a repressão na maioria dos casos. Fingimos, como na espetaculosa e midiática ação carioca do morro do Alemão, onde se promove uma mudança de traficantes para outros endereços fora da possível rota turística de uma copa do mundo. Fingimos que reprimimos, da mesma forma que somos permissivos com o usuário, fonte real e financiador primeiro de toda a cadeia das drogas, desde seu desenvolvimento, produção e comercialização.

Também transitamos no terreno do tratamento, muito mais privado do que público, mas somente como uma forma de aplacarmos nossa consciência.


Não há maior questionamento das causas e nem sobre o direito das pessoas em se suicidarem, se o quiserem. Há quem troque vida futura por prazer no presente. Ninguém desconhece o dano de certos hábitos alimentares nem que o próximo cigarro encurtará o ciclo biológico em alguns minutos.


Então, sem querer sem bonzinho nem politicamente correto, depois de tanta lenga-lenga, explicito minha opinião. Momentânea, pois não tenho conhecimento de causa e espero ainda mudá-la várias vezes, pela reflexão.


Fatores culturais: voltar a promover formação humanística nas escolas e universidades, com visão antropocêntrica, dando ao homem, não ao bem material, o foco da efetiva felicidade. Não sei como fazer isso, mas sei que não é fomentando e achando bonitinha uma sociedade crescentemente consumista e competitiva. Nem com a divulgação pela imprensa do consumo associado ao glamour dos ídolos-pés-de-barro que ela mesmo forma e cria, de olho em seus lucros.


Repressão: punir exemplarmente o traficante e o usuário, como sócios efetivos que são. O traficante e os que dele se utilizam nos corredores da corrupção, excluindo-lhe para sempre do convívio social, em amputação radical. O usuário, tratamento público na primeira ocorrência. Criminalização na reincidência, podendo alcançar a amputação social na progressão.


Tratamento: ao usuário, limitado à primeira ocorrência.


Ou então, libera geral e se dá o direito a cada um de como se suicidar. Pelo uso de drogas compráveis em farmácias, apodrecendo em masmorras ou em muros de fuzilamento, como conseqüência de crimes cometidos sob influência de drogas.


É radical, talvez menos do que a coleção de vítimas inocentes executadas diariamente nas esquinas pela população de zumbis que estamos deixando florescer pela nossa dubiedade, pelo não reconhecimento da epidemia social.

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