domingo, abril 29, 2007

Tá na Hora do Pau

O artigo abaixo expressa com clareza os danos institucionais que advirão com a utilização das forças armadas na segurança pública, conforme solicitado pelo Gov Cabral.
De fato, não poderão agir como se em guerra estivéssemos (apesar de o estarmos efetivamente). Em outra situação, não sabem agir. Será um fracasso.
A desmoralização daí decorrente não atingirá somente as forças armadas mas a auto-estima nacional, com a sensação de que não há mais saída.
O alerta do Min. Olympio Pereira da Silva Junior, do Superior Tribunal Militar, é um aviso lúcido e ponderado. Vale a pena pensarmos sobre ele.

"Não é possível mais agüentar o reinado da bandidagem no Rio de Janeiro. A violência gratuita acontecendo em todas as horas do dia, não mais nos escuros e escondidos becos das favelas, mas nas ruas movimentadas da cidade.
Por mais absurdo que possa parecer, já nos acostumamos à vida engaiolada das residências cercadas de grades, guaritas de segurança (que não servem pra nada), carros blindados enfim, nos acostumamos a viver com medo.Não há confiança no aparelho policial do Estado, infestado e destruído pela corrupção. As cadeias, presídios, penitenciárias, colônias agrícolas, casas de detenção etc - tudo, enfim, que a lei apresenta como forma de ressocializar o criminoso, não funciona e é comandado pelos esquemas criminosos das facções.
Os políticos, juristas, criminólogos, psicólogos, enfim os estudiosos do problema apresentam as mesmas soluções de 30 anos atrás, ou seja, a segurança pública é problema de educação, saúde, problema de Estado. É a falta de uma política de Estado para erradicação da pobreza etc. Há quanto tempo já se ouve isso ? Eu acho que não dá mais. A sociedade não pode mais se omitir, tem de entrar na briga. É claro que educação, saúde, assistência social etc é solução, mas a longo, muito a longo prazo.
O que o Rio de Janeiro, que virou Cidade Perigosa e não mais Maravilhosa, precisa, é de ação - e rápida. Temos de dar resposta a essa violência. Resposta imediata. Não haverá tempo para esperarmos as políticas e os programas de governo. Não podemos nos conformar com a dominação. Não podemos ficar contentes só porque conseguimos sair, trabalhar e voltar pra casa sem nada nos acontecer, porque um dia a sorte vai acabar e essa violência vai bater na sua porta. Vai atingir você, seu filho, sua mãe, seu amigo (se já não atingiu).
Chegamos à encruzilhada. Ou tomamos uma atitude já, ou vamos sucumbir a esse tsumami marginal. O Rio "tá dominado" e o aparelho estatal repressivo, vencido. Não temos saída. Tá na hora do pau!
No que diz respeito à ajuda solicitada ao presidente pelo governador Sérgio Cabral em colocar as Forças Armadas na segurança do Rio de Janeiro, me desculpem os que acreditam na eficácia da medida, mas não vai dar certo.
Não vai dar certo porque o que o governador quer é a intimidação pela presença, ou seja, colocam-se militares com uniformes rajados, armados de fuzil e metralhadora, carros de combate etc em lugares estratégicos, fazendo figuração.

A população desavisada vai adorar. Vai se sentir segura. Só que os bandidos sabem que os militares não vão abrir fogo, por exemplo, dentro do túnel Rebouças, não vão jogar granadas na Avenida Copacabana, não vão subir os morros com os blindados. O que vai acontecer, verdadeiramente, é que vão passar vergonha - e isso as Forças Armadas não devem, nem podem, nem vão permitir.
Agora, se o que o governador e o presidente querem (o que eu duvido), realmente, que as Forças Armadas dêem cabo da criminalidade do Rio de Janeiro, afastem a política e deixem que se cumpra a missão, missão de guerra, missão de combate, esse sim é o trabalho das Forças Armadas. É para isso que elas são treinadas. É isso que elas sabem fazer, e bem. O resto é "balela", é politicagem inútil."

Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil

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