quinta-feira, abril 12, 2007

Apagão Moral

Embora com algumas discordâncias pontuais, o editorial abaixo dá uma visão panorâmica sobre o problema.
Minhas discordâncias principais restringem-se
a) ao reconhecimento de competência nos quadros (são indicações políticas, funcionários terceirizados ou concursados que sabem na ponta da língua a Lei 8112 (Estatuto dos Funcionários Públicos e, por essa razão, passaram no concurso);
b) não atribuir responsabilidade ao modelo implantado no governo FHCalabar ao criar as malditas agências (des)reguladoras, dentre elas a ANAC implantada só neste governo;



Editorial Jetsite

1-Durante a administração do presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981) a qualidade do controle aéreo norte-americano decaiu. O governo Carter não investiu como deveria em equipamentos, treinamento e salários melhores para os controladores. Para piorar, ao mesmo tempo, o tráfego aéreo explodiu, em função da desregulamentação de vôos domésticos promulgada em 1978.

2-Quando Ronald Reagan assumiu a presidência no começo de 1981,
inicialmente procurou o presidente da Professional Air Traffic Controllers Organization (PATCO), o sindicato ao qual estavam associados 17.500 controladores de tráfego aéreo norte-americanos. Reagan quiz afinar as relações com os controladores. Estes resolveram usar de sua posição privilegiada e endureceram com a administração federal: o presidente da PATCO, Robert Poli, exigiu aumento de US$ 10.000,00 ao ano para cada controlador (os salários destes profissionais ia de US$ 20.462,00 a U$$ 49.229,00 ao ano) Salários digníssimos para a época.

3-O governo propôs uma redução de jornada e aumento de 10% dos
salários. Os controladores endureceram em suas posições e declararam uma greve geral deflagrada no dia 3 de agosto, em plena altíssima estação. Dos 17.500 controladores, 13.000 abandonaram seus postos de trabalho. O que fez Ronald Reagan? Deu 48 horas de parzo para que os grevistas voltassem aos seus postos. Quando isso não aconteceu, no dia 8 de agosto de 1981, Ronald Reagan demitiu todos os grevistas. E o fez constitucionalmente, baseado num ato de 1947, (Taft-Hartley Act) que determinava a obrigatoriedade do préstimo ininterrupto de controle de vôos no país. Reagan foi além: baniu cada um dos 13.500 grevistas de voltar a trabalhar em quaisquer serviços públicos.

4-Foi a maior derrota do sindicalismo norte-americano em 60 anos. E foi a primeira demonstração inequívoca de que havia um homem de fibra na presidência. Mas isso é lá na América do Norte. E tem gente que ainda diz que os norte-americanos são tolos. Nós é que somos 180 milhões de Gérsons, certo?

5-Porque aqui na América do Sul, a coisa é mais embaixo. Vivemos um momento de crise inédita não apenas na aviação, mas nas instituições. É por essa razão que o Apagão Aéreo não será resolvido com brevidade: simplesmente, porque não há pessoas capazes de consertar um sistema solapado por despreparo, incompetência e corrupção.

6-Os governos Lula 1 e 2 dizimaram as lideranças técnicas nas
estatais, substituindo profissionais respeitados e com amplos conhecimentos técnicos por políticos desonestos, despreparados e despudorados.

7-O descalabro começa pelo próprio presidente Lula, que escolheu
para Ministro da Defesa um homem que não reúne nenhum predicado que o capacite à difícil missão. Lula é, portanto, o primeiro e o maior culpado não apenas pelo apagão aéreo, mas pelo apagão moral que escurece nossa nação. É bom lembrar que o presidente é também o chefe das forças armadas.

8-Mas foi justamente hoje, 30 de março, que o ministro da defesa,
Waldir Pires extrapolou todo e qualquer limite, ao viajar candidamente para o Rio. Em meio ao caos, lá foi ele gozar um fim de semana à beira-mar, alheio ao fato de que, pelos aeroportos brasileiros, eclodia a pior crise da história de nossa aviação. Inepto tecnicamente, inábil no trato político com os controladores, sem respeito das três armas que deveria comandar, o Ministro Pires tem que ser demitido imediatamente. Sumariamente.

9-Sua substituição não resolveria o Apagão. Todo o sistema de nossa
aviação está seriamente comprometido. Com raras exceções, é um sistema dirigido por pessoas desonestas, despreparadas ou desmotivadas. Algumas conseguem até somar essas três características.

10-Tomemos por exemplo a empresa que (em tese) administra nossos aeroportos, a Infraero. Não há como esconder que durante a administração Carlos Wilson, a estatal transformou-se num valhacouto de ladravazes. Desvios, obras superfaturadas, desnecessárias. Apadrinhamentos, concorrências viciadas. Viu-se de tudo um pouco. O fundamental, como ter pistas em condições de uso, porém, ah, isso não foi feito. Obra pequena, não daria para ganhar muito "nos desvios". É por isso que o mais movimentado aeroporto do país, Congonhas, fecha quando chove. Ridículo.

11-Dentre os principais cargos de confiança não há um único
integrante do alto escalão na Infraero ou na ANAC que saiba diferenciar um Boeing de um Airbus, uma biruta de um radar. Mesmo que sejam substituídos por gente competente (que há de sobra em ambas as empresas), o estrago está feito. Mas não se corrige da noite para o dia.

12-Que dizer da pobre FAB? Sem receber recursos, vive à míngua. Suas aeronaves voam o mínimo, apenas o suficiente para evitar que se estraguem por falta de uso. Não há nem munição suficiente para treinamento de tiro entre os caçadores. Veja o caso de Guarulhos, que ficou por quase um mês com o equipamento ILS fora do ar: a aeronave da FAR que deveria calibrar o sistema estava com seu trem de pouso avariado e não pode certificar o ILS para que retornasse à funcionar. Dezenas de vôos foram desviados, milhares de passageiros prejudicados. O governo só percebeu isso e reagiu depois de três dias de fechamento do aeroporto.

13-Veja que o governo federal mais uma vez mente para a nação: neste ano de 2007, todo ele vivido em meio à crise, que já completa mais de 6 meses, o governo efetivamente investiu apenas 7 (sete) milhões dos 520 milhões que tem contingenciados para aplicar no setor. O governo, não reequipou, não investiu, não tratou de cuidar dos controladores, não reparou equipamentos quebrados. Deixou o setor à deriva, embora já viesse dando sinais de esgotamento desde 29 de setembro, quando as falhas estruturais de um sistema sucateado não puderam salvar a vida dos 154 inocentes ocupantes do vôo 1907 da Gol.

14-Os resultados são desastrosos para empresas aéreas e usuários.
Estima-se um aumento de até 20% no consumo de combustíveis por parte das companhias aéreas apenas em função da operação-padrão desencadeada pelos controladores nos últimos 6 meses. Isso sem falar nas cifras incalculáveis, obtidas quando se somam as perdas resultantes de negócios desfeitos, compromissos adiados, investimentos suspensos. E o que é pior: com mais esta crise, certamente o Brasil será rebaixado de categoria na auditagem anual da FAA/ ICAO, com conseqüências desastrosas para nossas empresa
aéreas.

15-Essa é a imagem que nosso país deve projetar lá fora? Um país tão ridículo que tem sua economia acidentada após um triste desastre aéreo? Tenho 43 anos de vida e quase 30 de aviação. Nunca vi nada parecido, em época alguma, em lugar algum. Adicionando insulto à injúria

16-Este editorial foi escrito na própria noite de sexta-feira. No
domingo, 1º de abril (a data é propícia), abro o jornal e tomo um choque. As imagens publicadas na capa do jornal Estado de S. Paulo definiam perfeitamente o caos moral que levou ao apagão aéreo deste país. Na sexta-feira à noite, enquanto milhares de passageiros sofriam nos 49 aeroportos fechados pela greve dos controladores, a diretora da ANAC, Denise Abreu, dava despreocupadamente baforadas num charuto durante o casamento da filha de um dos diretores do órgão, Leur Lomanto, em restaurante na Bahia.

17-A sra. Denise Abreu mostrou a habitual falta de noção da classe
política brasileira, sem mostrar qualquer preocupação com a opinião
pública. Ou com o que é certo e errado. E com sua imagem singela, entra para o caso do Apagão aéreo resumindo com uma imagem que se compara à Dança da Pizza, tristemente protagonizada pela deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) em outro escândalo nacional.

18-O bom senso a teria feito rever seus planos e retornar a
Brasília, para participar das graves e tensas reuniões em Brasília, que só terminariam na madrugada de sábado. Mas não: resolveu permanecer em meio ao convescote de políticos, organizado tanto para celebrar um casamento como para mostrar o "puder" do clã Lomanto. Paradoxalmente, o comportamento da Sra. Denise Abreu, talvez ajude a nação a entender as verdadeiras causas do colapso da aviação brasileira. Nossa aviação encontra-se perdida como conseqüência de uma desastre nacional: a politização de órgãos públicos a níveis jamais vistos.

19-Quando organismos, autarquias e departamentos de função
eminentemente técnicas são entregues à pessoas despreparadas,
despreocupadas e/ou desqualificadas para as funções, o resultado não pode ser diferente. A senhora Denise Abreu, o senhor Leur Lomanto, e todos os responsáveis pelo caos aéreo - a começar do presidente Lula, que colocou no ministério da defesa e na direção da Infraero dois políticos que não conseguem diferenciar um Boeing de um Airbus ou um radar de uma biruta - são perfeitos exemplos.

20-Como mostra a foto do Estado, dão de ombros e acendem seus
charutos. E é na névoa de seus "puros" cubanos que se esvaem os sonhos de um país minimamente mais justo, mais sério, mais decente.

21-Boas baforadas, senhora Denise Abreu, digníssimos diretores de
ANAC, Infraero e queijandos. Enquanto a aviação do Brasil arde, vocês só sabem fazer mesmo fumaça.

22-O apagão aéreo vai longe. Por essas e por outras (que ainda
virão) tenho, pela primeira vez na vida, vergonha de ser brasileiro.
Vergonha de viver na escuridão de um apagão ético. De um apagão de esperança. De um apagão moral.

Gianfranco Beting 01/04/2007

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home