quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O Martírio de Qassim

Os combates na véspera haviam atingido o casebre de Mahmud (nome fictício), avariando a porta da casa. Mahmud não saíra naquele dia, ficara em casa para tentar refazê-la, pois a insegurança reinante poderia atingir sua sua mulher e as duas filhas. A mais velha, Abeer Qassim Al Janabi, mocinha com 14 anos, pele de pêssego e cabelos negros luzidios, já ensaiava o uso da burka. Estava na hora de providenciar seu casamento. Tinha que se lembrar disso amanhã, pensou.
Sorte sua é que havia uma guarnição americana quase em frente, para sua defesa. Mas não podia vacilar.
Enquanto tentava arrumar um pedaço de madeira, pregos e parafusos no meio do caos para fabricar uma tranca, não estranhou a entrada de três americanos em sua casa. Eram aliados, talvez querendo um café ou um copo d'água. Recepcionou-os com um sorriso.
Que rapidamente desapareceu , num misto de angústia e surpresa, quando foi ameaçado e empurrado com sua família, aos gritos, para um cômodo. Com sua família, menos com Qassim, que foi puxada pelos cabelos antes de fecharem a porta. Num relance, lembrou-se um deles de sua pequena filha, morena de cabelos negros como ela, no amparo e resguardo lá nos Estados Unidos. Mas foi só um relance.
Mahmud começou a esmurrar a porta, tentando abrí-la, ao escutar o choro e os gritos de socorro de Qassim. Felizmente não conseguiu. Foi poupado de ver o indescritível.
Qassim estendida no chão, cabelos segurados por um soldado, os braços por outro. O terceiro rasgava-lhe a roupa e forçava-a a abrir as pernas. Qassim, com o corpo retesado, teve seu choro abafado por duas ou três bofetadas. O sangue correu de seu rosto. E tingiu suas coxas, seus trapos, sua alma.
O desespero no quarto aumentou. Gritaria da revolta abafando os lamentos chorados de Qassim, sussurrados em versos do Alcorão. Os mesmos que havia lido naquela manhã.
O soldado soltou-lhe os cabelos, engatilhou sua pisola, deu um ponta-pé na porta do quarto e atirou. Poucos tiros tiraram a vida de Mahmud, de sua mulher e de sua caçulinha, com três anos. Poucos tiros, três ou quatro, redobraram o choro contido de Qassim, vaso dos dejetos do primeiro soldado e agora servindo ao segundo. A dor física já não sentia. Ferro em brasa em suas entranhas era menor que a dor moral.
Do segundo, saciado e erguendo as calças, deitou-se o terceiro. Agora já sem qualquer esboço de reação, anestesiada pelo pavor.
- Livrei-me dos outros - disse o soldado antes de deitar-se sobre Qassim, sob o cúmplice riso satisfeito dos comparsas.
Quando terminou, Qassim havia desmaiado. Alá, em sua benevolência, tirou-lhe os sentidos.
Um estampido levou-a ao paraíso.
Os soldados derramaram gasolina sobre seu inerte e ensanguentado corpo adolescente. Afinal, o que é um incêncio a mais em Bagdá?
A tocha resultante levaria as provas e as chamas crepitaram, queimando a casa, os corpos e os vestígios. Os anelos de fumaça misturaram-se ao espírito de Qassim. Acolhidos por Alá.
Esta é a honra americana que Dick Cheney, Vice-Presidente dos Estados Unidos, diz defender.

ET: Os soldados protagonistas foram o Sgt Paul Cortez e os soldados James Barker e Steven Green. O fato é verídico e os criminosos estão sendo submetidos à Corte Marcial. Que, certamente, não terá poderes para devolver a juventude colhida pela maldade humana.
Nem pela guerra imbecil de Bush.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Tanto quanto Saddan, Bush deveria ser submetido a um Tribunal Internacional por crime contra a humanidade.

7:28 AM  

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